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26 de mar de 2009

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 2)



(Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!)

Encheu a Torre do Tombo
encheu a Torre de Pisa
a Torre Velha da outra Banda
encheu a Torre de Eiffel
mais a Torre de Belém...
Encheu a Torre de Londres
mais a Torre de Babel
e a Torre de Quixeramobim
(se é que havia torre de Quixeramobim)
e não havendo mais torre
nem na terra nem no céu,
encheu a Torre do Reino
que era Torre de Marfim...

Encheu de dobles mazdobles do bom riir
daquela grei
que El-Rei em trobas não sabia mais
ser rei:
– se fosse assi que ela veese
das que Alá sou, ca o non sey...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 1)


Vocal denan vocal
flan hyat sobremal
lãs cinch vacals te do:
a, e, i, o, u, so.

Hás de cantar á veira do rio,
ó son d’as olinas do campo frolido...

Cornet deu a Paay Charinho
passarinho trobador.

Muy sem vergonha irey per u for
ora com graça de vós, mya senhor.

Dom Diniz, oh lavrador!
Encheu o reino de cantar d’amigo
as midonetes de louçã senhor.
Encheu o Tejo e o d’Entre-Douro-e-Minho,
o Alentejo, a Península, a Ocitânia e o Pireneus...
Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!

Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO VIII)


Se o mar não estiver aqui amanhã de manhã...
(Ah, de saudade minha irmã não morreria
se o mar secasse amanhã!), onde estará?

Certamente estará no megalointestino da metrópole
tragado à noite pela fúria dos esgotos revoltosos.
Talvez se estabeleça uma questão internacional
porque os canais de esgoto terão sugado uma overdose
de coca-cola e um barco inofensivo de salada à perestroika
e um certo carregamento de papéis da dívida externa...
He-man porém virá sem ser chamado
e a cidade terá que vomitar o mar e as canoas,
a frota de coca-gate e as gaivotas embriagadas,
plataformas entulhos maresia de alcatrão,
as enchovas e as trutas marinhas do tesouro nacional,
o tubarão aturdido e um marinheiro naufragado,
os barcos dos pescadores e o leite de Shernobyl,
a leptospirose e os monstros de estimação...
As estrelas do mar de óleo dieesel
e mais outras porcarias que fazem mal à digestão...

Navegar é preciso...
Assim como viver do tédio
que há na alegria sem remédio
de ser feliz por profissão!...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO VII)


Eu que sou o pior de todos esses cúmplices de travessia...
Que sempre fui o mais dotado sem nenhum proveito...
Que nunca recebi mais nada além de cumprimentos...
Que carrego as seqüelas de todas as angústias
e mais aquelas que o destino me traz só por costume...
Eu que mais nada sei na vida a não ser fazer poemas...
Que desisto de tudo no meio do caminho...
Que não tenho pudor nos pensamentos...
Que não reclamo de mais nada por mero comodismo...
Que só me compadeço da miséria alheia quando nada tenho...
Eu que às vezes sequer tenho vergonha
de desejar o prato-feito dos desabrigados da enchente...
Que sou retardatário só por causa de objetos esquecidos...
Que sei que o beijo da chegada não adoça a boca amarga de meus filhos...
Que minto em casa como se fosse líder de algum piquete
quando sequer participei da greve...
Eu que nem mesmo estendo a mão aos companheiros
por receio doentio de pegar um vírus,
mas carrego para casa na sola do sapato
o catarro em que pisei na embarcação...

Sou único, sou múltiplo,
sou todos esses tontos navegantes...
Nossa Senhora da Ilha da Conceição!...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO VI)


Conheço todos esses tontos navegantes
e todos os seus casos e descasos,
seus encontros e desencontros,
mesmo aqueles com os quais nunca falei:

– O profeta que perdeu toda a família no circo incendiado...
– O pregador religioso que cobiça a mulher do irmão perdido
na cruzada missionária do tráfico da fé...
– O papa-léguas dos quilombos do Grande Rio, que leva a filha para a
escola pública no subúrbio da Leopoldina...
– A mulher que perdeu o filho drogado num desastre de automóvel...
– A jovem que rompeu a vulva na cerca de arame farpado...
– A moça que perdeu a virgindade no selim da bicicleta...
– O imbecil que sempre ocupa o lugar destinado ao paraplégico...
– A balconista despedida porque não quis dormir com o patrão...
– A menor que pede esmola para o tio cafetão...
Sou múltiplo, sou todos eles,
Nossa Senhora da Ilha da Conceição!
– O candidato político que nunca foi eleito...
– O peão de xique-xique que é calouro profissional...
– A escritora de olhos verdes que faz versos com o sexo...
– Essas mocinhas atrizes de espetáculos beneficentes...
– O fanático que tem a fórmula para matar a fome nacional...
– Esses líderes sociais que padecem de diarréia ideológica...
– Essas mulheres a néon com luzes de motel na cara...
– O mendigo que tem uma mansão na baixada fluminense...
– O mestre que perdeu a embarcação na neblina...
– A enfermeira que carrega uma scania-vabis no traseiro...
– Os garotos que se afogaram no acidente de trajeto...
– Vendedores ambulantes, skatistas, putas e travestis...
– E os pequenos (tu)um(l)tuários
desse síndrome social
que nunca mais terão (c) asa própria
com esse sistema financeiro
de emancipação nacional...

Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO V)



Vou cumprindo o destino de pegar a barca da manhã
e a da tarde e a da noite e a da que não tem hora,
a que vem e a que vai
e a que não tem para onde ir
que certamente me levará pra Cagayan
no píer transoceânico dessa republiqueta filipina.

E nada se pode fazer.
Mas tudo o que se pode fazer
é o que se faz quando o estupro é inevitável.
A área voluntária para fumantes é inútil.
Eu, se tenho vontade de fumar, fumo simplesmente
como eu e minha amante fazemos amor
quando temos vontade de fazer amor.
Sou tabagista polivalente. Se não tenho desejo de fumar,
fumo o cigarro que meu companheiro do lado fuma
enquanto não estou fumando.

E aprecio o que há nisso de patética fraternidade
comum desse jeitinho nacional de ser passivo...
Assim como não é preciso comprar o jornal de hoje
para ficar sabendo que amanhã o mercado financeiro
vai operar com taxas mais elevadas...
Simplesmente porque isso está impresso
no jornal do usuário em transe do meu lado...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO IV)


É quase comiseração o amor que sinto
pelos raios de sol agonizantes nas esteiras de óleo dieesel
como se fossem borboletas marinhas de coral
debatendo-se numa rede de espinhais carnívoros...

Mas não tenho nenhuma sensação
por causa desses homens que navegam olhando para o mar
com sentimento de autocomiseração...
Estão sempre fadados a chegar depois dos fatos
como se não houvesse pressa alguma de fazer
a abolição da escravatura proletária
escrita com sangue no coro dos operários.
ou daqueles que fazem da viagem para o lar
uma causa sem motivo de celebração antecipada
porque nem sabem se o dia de amanhã virá...

Zumbis de encruza dos palmares suburbanos
lambendo um puro feeling de fim de semana
que cantarolam ao ritmo dos pés dos punks
dos trashers e dos psycho-rokabilles
uma sunshine of your love qualquer
no show business da proa.

Mesmo assim e apesar
dessa irremediável sensação
de ressaca proletariogênica,
sou quase-andróide da interpool capitalista
navegando de Andrômeda a Cassiopéia...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO III)


Agora a barca é essa grande síntese transacional de quase-ser,
do quase-ser como eu, que sou quase-feliz
porque navego solidário nesse estado de alegria patológica,
um paciente bêbado assentado no lugar cativo
da terapia coletiva dos afortunados de merda nenhuma...

Como aquelas bancárias quase-amantes
dos delicados operadores de travellers checks
cochichando aos risinhos e segredos entre si
como se fossem as mocinhas de Picasso
posando nas vitrines coloridas das ruas de Avignon...

E eles as querem tanto a todas o quanto eu quero
que o mar esteja aqui amanhã de manhã...
E se o mar não estiver aqui amanhã de manhã?
Onde estarão as gaivotas embriagadas por essa maresia,
os peixes aturdidos sob os cascos dos navios
e as canoas e os barcos dos pescadores?
E os entulhos boiando no clarão da tarde sobre o mar,
onde estarão?...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO II)


A Cantareira não existe mais.
E nunca mais ouvi falar de alguém
que se rejubilasse tanto com atravessar o mar.
Ninguém sabe mais nada sobre a última viagem.
Meu pai nunca mais cavalgará pelas campinas
e minha irmã morreu como ave de arribação
na direção do mar que havia nas histórias do arco-da-velha.
Estar aqui é como ser nativo de lugar nenhum,
as pessoas não mais chegam de nenhum lugar
e o mar que havia na cidade não está mais nela...

A travessia agora não é mais de navegar
como no lago do jardim da minha casa
onde apertei a mão de mais príncipes do que Marcopolo.
Onde venci tormentas que Ulisses não logrou vencer.
Onde dormi no colo de todas as mulheres do amigo de meu pai.
Onde abordei mais ilhas do que Robinson Crusoé.
Onde morri de mar mais vezes do que minha irmã sonhou morrer...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO I)


Quando eu era pequenino
(morávamos lá pelas bandas de Minas)
um carpinteiro amigo de meu pai
levou-me de presente uma miniatura da Cantareira
que trafegava pela Baía da Guanabara
entre Rio e Nictheróy...

Aquele homem falava da exultação de atravessar o mar
como meu pai falava da paixão de cavalgar pelas campinas...
E contava coisas e coisas sobre sua última viagem
como um velho marinheiro desfiando recordações
das mulheres de cais que conhecera em Barcelona...
E dizia que pessoas vinham de países longínquos
para visitar a cidade e o mar que havia nela...

Eu então deitava minha barca no lago do jardim
e me lembrava das aventuras de Marcopolo
que à noite minha irmã contava à luz da lamparina
como nas histórias do arco-da-velha...

Hoje sei que o destino de crescer é de ter sido apenas,
e nada mais. Estou aqui, velho marinheiro ao pôr-do-sol,
igual a todos os mineradores de poemas,
fossilizados pela crença do mineiro de que o mar é seu...

A. Estebanez

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL (Horário 4)


Eu prometo
se for eleito:

fazer tudo-tudo pelo social...
Botar somente a cabecinha...
Atirar a primeira pedra
e (a) tirar o Zé do trem
o Severino do ca (n) gaço
onde ele sempre se meteu.
Vou ajeitar para o Raimundo
(que é meio-parente meu)
ser funcionário em Medellín...
Se por cá only love save,
? porque lá não é assim...

Todo (o) poder emana do povo
e em seu nome será exercido
até que outro mais forte se alevante...
Vou desviar essas enchentes
declarar o sertão perdido
indicar o Quito Vendes
produto do paraíso...
Camuflar os clandestinos
pra não serem reconhecidos...

Isso eu prometo.
É pra quem pode.
Ta decidido!

Se correrem um rico e um pobre,
o rico será detido.

Comigo vai ser assim...
Vote em mim!...


Afonso Estebanez

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL (Horário 3)



E lhes asseguro mais:

Quem cometer delito contra a natureza
será punido
com pena
de prisão de quinze dias a três meses
(apenas).

Porque a justiça é falha, mas não tarda!
– assim falava Zaratustra,
porque dizia Virgulino
que Maria Bonita é quem mandava.

Mas lhes asseguro ainda:
os governantes não são de constranger o povo
após haver-lhe reduzido com medidas provisórias
a fonte constitucional de resistência...
... Nunca no GATILHO
... Nem na usURPAÇÃO
... Nem após simbólica ameaça
de lhe causarem condição injusta
no cárcere privado
da liberdade anônima de expressão...
... Nem mesmo pelo enforcamento
da consciência nacional
no pendão da esperança
a meio-pau!

E eu,
neste país
... de atenciosas saudações
... de ímpar consideração
... e de elevado apreço,
de escassas camisinhas
e calcinhas de veludo...

Eu prometo
se for eleito
fazer de tudo!


Afonso Estebanez

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL (Horário 2)


... Ninguém será mantido na escravidão
ou submetido a qualquer forma de tortura
injustamente preso ou acusado de qualquer
delito por mera presunção até que prove
a inocência violada...
Eu lhes asseguro:

que essa dívida externa não será mais paga
com o sorriso desdentado da fome patriótica.
Que nossas filhas irão virgens para o altar
que todos os caminhos irão dar em Roma
que nossas mães hão de sempre sofrer num paraíso
que a autoridade episcopal será sempre infalível
que fazer um discurso deste era preciso!

E lhes asseguramos
que as nações estão decididas a reafirmar a fé
nos direitos fundamentais do ser humano,
cerzindo a paz com os laços insuspeitos
da autodeterminação dos povos
com liberdade, igualdade e fraternidade...

Do povo se ouvirá o herói-cobrado retumbante
às margens do Ipiranga ainda tão plácidas...
A ti, correligionária amada! serei fiel ao menos
até que a morte nos separe. Os meus testículos-de-cão
serão eternamente teus...
Liga não, mês que vem a inflação será contida
e daremos tudo aos pobres para emprestar a Deus!


A. Estebanez

DEMAGOLOGIA DO DISCURSO NACIONAL (Horário 1)


Se é mais fácil
um camelo passar no fundo de uma agulha
um bom ladrão roubar o paraíso
o galo cantar três vezes
sem que alguém haja mentido
do que adentrar no reino dos céus
um rico
um pulha
ou um político...

O condomínio do meu edifício
o porteiro e aquele síndico antipático
são a expressão mais-que-perfeita
da comunhão de idéias publicadas
no DO de 21 de dezembro de 1964.

Se todos os homens
nascem livres e iguais perante a lei
com direito ao trabalho e à justiça
dotados de razão e consciência,
comigo vai ser assim:

os negros passarão a usar o elevador social
o jogo-de-bicho será legalizado
controlarei a chuva no nordeste
imporei os preços dos produtos de exportação
proclamarei anistiados os escravos exilados
nas masmorras servis do ventre livre
condecorarei os cavalos dos republicanos
farei chegar a general o soldado raso
tal e qual o Bateau Mouche naufragou
escandalosamente por acaso.


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 12)


Meninos, eu vi!...

O rio caudaloso onde todos vêm beber:
o quilombo e a nobreza apeada do poder...
da ermida a esguia sombra e a noite na mortalha...
o abutre da casa-grande e o cordeiro da senzala...
o falcão da catedral e a andorinha campesina...
a pomba do espírito santo e a ave de rapina...
a serpente rastejante e o condor – fênix do céu...
o descontente do rei e os contentes do bordel...
o escravocrata lapidado a golpes de melodrama...
o burguês bayroniano literomaníaco de spleen...
o cangambá morossoca tedesco-sorobacana...
o corvo republicano do golpe de Aberdeen...

O dia da lembrança de morrer...
Deixar a vida como deixa o tédio
do deserto o poente caminheiro...
A pálpebra demente
o delirium tremens
o longo pesadelo
a face macilenta
esse infinito anelo
o desespero pálido
o anêmico azevedo
o lati-sem-fúndio
a placidez do lago
a solidão do ermo
o tremedal profundo...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDE IROS DE GARVAIA (Modo 11)


Meninos, eu vi!...
Meninos, eu li!...

Eu vi a Breve Crônica
de Como Dom Paio Correia tomou este Reino de Algarve aos Mouros
sem que os Errantes Encavalgados da Cruzada Santa tombassem
de tão exaustos ou de Mau Súbito Ante a Visão do Cavaleiro Túndalo.

Eu li o “Poema Americano Dedicado à Magestade
do Muito Alto e Muito Poderoso Príncipe e Senhor Dom Pedro II,
Venerável Grã-Imperador Constitucional
e Defensor Perpétuo do Brasil”...

? Meninos, e quem não leu...
? Meninos, e quem não viu...
Subir tanto que desceu...
Oh, meninos do Brasil!...


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDE IROS DE GARVAIA (Modo 10)


Perguntai a Glauceste, a Daliana,
a Critilo, a Minésio, a Doroteu,
perguntai ao Gonzaga, a Juliana,
perguntai a Marília de Dirceu...

Sabei dos conjurados matastásios,
das nisas pastoris e alcimodontes,
se os ventos que bafejam estes vales
não bafejam primeiro o trás-os-montes?

Sim, que para lisonja do cuidado
testemunhas serão de meu gemido
este monte, aquele vale, aquele prado...

O negro a galope
atrás o chicote
seu grito de morte...
Meninos, eu vi!...

Eu vi o menino correndo...
Vi muitos e muitos galopes.
Vi o rei dar um golpe no tempo
e um trote no Solano Lopes...


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 9)


A boca não é cárcere da língua
nem os dentes muralha da palavra...
Oh, cantai! Mas não canteis apenas uma época,
que o tempo é a estalagem do futuro dissidente
onde tereis somente descoberto o caminho para a América.

Fui cúmplice de Laura nos triunfos de Petrarca,
de Tétis conheci o que de Eneida o Virgílio ignorava.
Eu amava Beatriz no leito de todas as mulheres
que a Dante contemplá-las era só o que bastava...

Mais louco do que Tasso tolerante como Gôngora divino como Herrera.
Mais sincero que Miranda mais puro que Anchieta e belo como Marini.
Mais humilde que Montaigne e sábio como Zurara
mais austero que Ferrera.
Corajoso como Bellay, paciente como Shakespeare e fiel como Guarini.

Se vos parece muito e preferis ser apenas um Restelo,
ao menos o estudo com o vosso desterro cumulado
deveis deixar em paz ao modernismo bem-te-vi
que o inexorável romantismo inda não é chegado...


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 8)


Mas o provedor da Cochinchina
não tinha lá essa maturidade
aristocrítica
para saber se todo esse manancial
consumolingüístico
que faz da carta de Caminha
o melhor achabundismo nativista
já cultivado na terra do em-que-se-plantando-nela-
tudo-dá!...
– Até políticos bananas e alices...

A medo vivo, a medo escrevo, a medo falo,
a medo digo. Hei medo do que falo só comigo.
Mas inda a medo ciodo, a medo calo...


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 7)


O gajo escreveu na guerra
o que homem nenhum logrou
escrever durante a paz...
Perdeu um olho na terra
porque enxergava demais.

? E si subesse da margarina
da carolina
da gasolina
da cocaína
da marijuana
da coca-cola
do macunaíma
da malunacama...

? E si subesse da veiby, a sol
veiby
veiby...

? E si subesse di sum paulo
? E si subesse da capei, a lua...
? E si tumasse um sorvete
? E si tumasse um pileque
daquela canção do roberto...
? E si subesse inglês
da américa do sul...
? E si subesse brasileirim
a praga tupiniquim...

? E si subesse da urticária do ortega...
? E dum andu-sarará da bolívia...
? E du pique-nique no pico de itabira
(na época havia pico de Itabira)
? E si subesse de mim...

upa-lelê
upa-lalá
believe or not, pá!...


Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 6)


Cegado, “peregrino vago errante
vendo nações linguagens e costumes
céus vários qualidades diferentes”...

Arma virunque cano Troiae... pá!
Não que virasse o cano da arma... pá!
E virou a História como queria ao viraire o vira-vira
das páginas da Odisséia
e dividiu a crônica de El-Rei em aC. e dC.
Pelo Mártir do Góçgota... pá!

Viu o auto da barca do inferno do alto da barca.
Navegou do alto ao baixo Nilo sem o selo ou a alforria.
Perdeu-se no alto e no baixo meretrício do Bairro Alto.
Embebedou-se no Alto e Baixo Leblon dos goliardos turistóides.
Foi tentado 40 dias no Alto Pavão e 40 noites no Baixo Pavãozinho.
Conheceu a Cidade Alta e a Baixa do Sapateiro
E naufragou no extremo oriente da vida como quem recebe
a extrema unção,
porque era chegada a hora de pagar pedágio a São Tanáz
para escapar do barco que levava ao alto da boceta de Pandora.
Êta hora! Êta hora...


Afonso Estebanez

POEMA ESCRITO NA ÁGUA


Minha mão volta a escrever
entre as páginas das águas
onde o amor me volte a ler
a história de suas lágrimas.

Que nunca me falte a tinta
para o branco da memória
que amor é mágoa distinta
da mágoa de toda história.

E entre as páginas viradas
que inundam meu coração
deixo mágoas derramadas
com sabor de uma canção.

Quantas delas já verteram
das águas todas passadas
e de espuma converteram
dor em flores restauradas.

Minha mão vem descrever
como faz a flor das águas
que reescreve o alvorecer
da vida isenta de mágoas.

A. Estebanez

ENTRE LUZ & SOMBRAS


Coloco-me de costas para o sol nascente
a sombra me vai só na via da lembrança
e o meu amor vai só na alma indiferente
jacente na canção remota da esperança.

Lembro de sonhos do futuro no presente
de reviver amores que o esperar alcança
das rosas fugidias de um jardim ausente
a despeito dos amanhãs em abundância.

A noite é feita de uma luz remanescente
a beirada da aurora é que me recomeça
pela estrada de volta para o meu futuro.

Vaga-me a alma pelos restos do poente
chegar é só o sonho para quem começa
e começar é conseguir andar no escuro.

A. Estebanez
(Dedicado ao notável poeta
Jenário de Fátima)

MEU SER POETA


Não pensei em ser poeta
mas a vida quis por mim:
planto lágrimas na pedra
e o que é dor vira jardim.

Não tão fácil é ser poeta
e tão fácil mesmo assim:
ser o princípio da guerra
pela paz que vem no fim.

Mas em terras de poeta
toda rosa é a alma afim
e em minha lida secreta
cada rosa é meu jardim.

Vou deixar de ser poeta
para ser meu querubim:
guardar na vida deserta
uma flor dentro de mim.

A. Estebanez
(Dedicado ao poeta Luiz Fernando Prôa
pelo seu aniversário – Agosto.24.2008)

ROSAS DE SAROM


 
Toma posse dos frutos do teu amor
ainda na tenra idade, como quem colhe
as rosas que primeiro desabrocharam
na orla do teu jardim...

Toma posse dos frutos da esperança
como o fazem os jardineiros de Sarom
que aguardam a floração das rosas
entre as sarças do Hebrom...

Toma posse dos frutos de teus sonhos
ainda que estejam verdes, como as aves
retomam entre os ciprestes do deserto
o seu ninho de esmeraldas...

Toma posse dos frutos de teu perdão
antes que seja tarde, como os pássaros
que reconstroem seu último refúgio
entre as pedras atiradas...

Toma posse de tuas ocasiões perdidas
mesmo que nunca reencontradas
como o fazem os lírios dos campos
que não precisam de nada...

Toma posse de teus ingênuos devaneios
como as rosas de Sarom o resplendor
e dos botões-de-ouro de teus seios
nas dunas do teu formoso amor!

A. Estebanez
(Dedicado à meiga Camilla Stael
– com meu especial carinho)

METADE DE MIM...


Metade é parte de mim
metade é parte velada
onde minha namorada
renasce do meu amor...

A metade enamorada
é paixão feita sem dor
é o lume da alvorada
na corola de uma flor...

Como rosa antecipada
no canteiro do jardim
assim é a sua chegada
noutra metade de mim...

É descanso do cansaço
da parte reencontrada
onde minha namorada
acorda dentro de mim

E é doce minha amada
perdida de me encontrar
metade sonha acordada
metade me faz sonhar...

A. Estebanez

A FOTO NA PAREDE

Imagem: Florbela Espanca

Meu retrato na parede
só traz uma novidade:
o fundo tinto de verde
ficou tinto de saudade.

O olhar pálido de sede
no poço da eternidade
é a luz filtrada na rede
da grade da liberdade.

Uma ruga me comove
de ter restado na vida
do nada que me ficou.

E só o sonho se move
na retina amanhecida
desta foto que restou.

A. Estebanez
(Dedicado com muito carinho
à amiga Lucia Borini Simões)

DOER DE AMOR


Esse amor dói tanto
que me faz de fome
devorar meu pranto
que o doer consome.

Mas viver o encanto
de eu sonhar insone
me faz ver o quanto
é o doer sem nome.

O doer dos carinhos
prazer dos espinhos
das rosas sem dor...

O doer que convém
o doer que faz bem
ao doer-se de amor.


A. Estebanez
(Dedicado a Giseli Estebanez)

POEMA DO MAR COTIDIANO...


Aqui ao seu redor me têm o mar cotidiano
e a placidez marinha da viagem concluída.
É o quanto basta além da linha do oceano
para eu morrer pelos encantos desta vida.

O mar me fala sobre santidade de religião
bandida e traz notícia sobre gente suicida.
Que importa à Iemanjá a hora do alcorão
e aos mortos que nem sabem desta vida...

Aves me vêm banidas da rebelião insana,
nada que aos deuses seja dado controlar.
Minha alma tem a paz ainda que profana
das sacras liturgias das religiões do mar.

Aqui ao meu redor os da família, mortos,
fazem barcos de papel para me confortar
e tenho aqui o amor sacrílego dos portos
despertados dos corpos cálidos de amar.

Aqui me vem o mar em cortesia há anos
trazer-me a lucidez da viagem resolvida.
E isso é tudo, além do mar e os oceanos
para viver do que me resta desta vida!...

A. Estebanez
(Dedicado com carinho à sempre amiga
Nolivia Fagundes *Poesias* - Comunidade
“Encontro com a Poesia e Amigos”)

COM A ALMA NUA


Fica-me a alma estacionada
em minha sombra ancorada
entre as sombras do jardim.

Vem a lua e a noite é longa
mas por debaixo da sombra
a alvorada escorre em mim.

Cada flor me encanta tanto
que a brisa volta do campo
com as vestes dos arco-íris.

Fica-me a alma pela aurora
e o amor prendendo a hora
pra de mim jamais partires.

Vai-me a lua embora enfim
mas o amor de tu’alma nua
já escorreu dentro de mim!

A. Estebanez
(Dedicado carinhosamente à amiga
Maria Catherine – “Maria Maria Amo”)

RAZÃO PARA VIVER


Vou abrir minha gaiola
dependurada na grade
da janela azul da alma
trancada pela saudade.

Vou soltar pela janela
o meu pássaro cantor
para procurar por ela
e saber do meu amor.

Nada lindo sabe tarde
sobre o lindo de viver
e viver nesta saudade
é tão lindo de morrer.

E por onde ela estiver
vai ouvir essa canção
cativa do bem-querer.
E talvez meu coração
nem precise de razão
com razão para viver.


A. Estebanez
(Dedicado à poetisa Jamile Adnan
– IP orkut: “Jamile MariaMaria”)

MEU HINO NACIONAL DE AMOR


Nas alvas pétalas de rosas que me envias
reescrevo os versos amorosos que te dei.
Teu coração relembra enquanto tu recrias
os afetos dos versos que ainda escreverei.

Apraz a alma que a alvorada de teus dias
renasça da esperança com que te sonhei:
com o encantar-te o coração das alegrias
de uma rainha que se encanta de seu rei.

Aprendi a escrever no topo da esperança
hasteando versos na colina da lembrança
do jardineiro que não sabe de outra flor...

E assim das pétalas da minha rosa única
os versos ao amor me servirão de túnica
e tu! Serás meu hino nacional de amor!...

A. Estebanez

A VIDA NA CONTRAMÃO


Não me embebedo com nada
porém me embriago de tudo
quanto mais me dão porrada
quanto mais me tenho mudo

Minha alma anda para frente
mas meu eu sempre pra trás
o que eu sonho é indiferente
quando peço o amor me traz

Minha vida anda embriagada
entre a aurora e a escuridão
bate em portas sem entrada
e quando entra é contramão

E esse mundo é tão deserto
que a noite me dorme acesa
com temor de não dar certo
meu despertar sem tristeza

E assim meus dias se calam
como as noites sobre o mar
como as rosas que só falam
quando o amor quer escutar.

A. Estebanez

BENDITA TODA (A) DOR



Bendita a sensação
de estar ferido pela amargura letal
de uma paixão mal resolvida.
Porque o amor será fênix
renascida...

Maldita a sensação
de ser feliz pela doçura eventual
de uma paixão bem resolvida...
Porque o amor será causa
da ferida...

Bem-aventurada toda (a) insanidade
e toda (a) ferida que se cura pela dor
porque dela será toda (a) eternidade
que se gloria da reparação do amor...

A. Estebanez

21 de mar de 2009

SUAVE É A ESPERA...


Deixa tua alma numa rosa
e um sonho no amanhecer
para ver minha esperança
que hoje espera te rever...

Tu não precisas do tempo
quando o amor acontecer.
O amor te chega na brisa
quando o sonho alvorecer.

Deixa o coração na porta
e um arco-íris no jardim...
A esperança se comporta
como flor dentro de mim.

Que suave é toda espera
para quem quer renascer
num sonho de primavera
que renasce sem morrer...

A. Estebanez
(Poema dedicado à minha filha
Johanna Rodrigues Estebanez Stael)

POR UM GRANDE AMOR


Nascer é como ouvir passar um rio
na concha do recôncavo da aurora
que acorda no crepúsculo sombrio
do tédio de passar sem ir embora!

Viver é como estar em pleno estio
de quando a primavera comemora
nos arco-íris do sonho o desfastio
de reflorir do estio de quem chora!

Sonhar é como reinventar o acaso
da causa dos amores sem destino
nas histórias de reinvenção da flor.

Morrer!... É como recontar o caso
de reinventar o sonho clandestino
de ter vivido por um grande amor!

A. Estebanez
(Dedicado ao Professor Aníbal Bragança
Paladino da Cultura Universitária no RJ)

HÁBITO ADQUIRIDO



Meus dias têm o hábito
de caminhar pela alameda sem dar conta de mim.
Um hábito que as tardes me ensinaram generosamente.
Os bolsos cheios de nada e as mãos vazias de tudo...
De volta, o portão de casa entreabre os braços secos
e me convida para entrar...

E vem aquela sensação de que esqueci
de me lembrar do que o dia indiferente não contou...
Retorno em busca da lembrança do sorriso de amizade,
do cântico de um pássaro, de um beijo que me deu a brisa...
E só então percebo que minhas mãos vadias
– não sabendo uma o que a outra anda fazendo –
já me haviam tocado o coração secretamente
com o encanto que as idas e vindas pela vida
acabavam de me dar...

Entro afinal, e num cantinho da memória
um sorriso de criança acende a luz
da minha alma...

Como se alguma flor esquecida
estivesse me estendendo a mão...
... a mão do aroma de rosas
que ainda me acompanha...

A. Estebanez

A FÊNIX DE HIROSHIMA


Oh, flor do céu tão cândida e tão pura!
Ô, fênix dos escombros de Hiroshima!
Devolva o desamor à dor da sepultura
e ao seu algoz o horror dessa chacina!

A dor que dói da guerra é a dor futura
e a rosa que a dor lembra é a matutina
por quem dobram os sinos é a ternura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!

Por quem dobram os sinos é candura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!
A rosa ensangüentada estava impura
nos escombros da aurora vespertina!

Ah, flor do céu tão baça e tão escura!
Prenúncio dos crepúsculos em ruína!
Devolva a paz ao mundo com doçura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!

A. Estebanez
(Poema de 1970 – Inédito. Homenagem
às vítimas do holocausto de 06/08/1945)

ALGUMA SAUDADE


Feliz é quando a espera alcança
bonito é onde é o fim da espera
o sonho é quando há esperança
num bem que nunca desespera.

Saudade é a casa da lembrança
de um longo estado de quimera
sonhar-te é andar como criança
no andar sem fim da primavera.

Amar-te é o quando de desejos
o enquanto matas-me de beijos
morrendo em mim tua vontade.

Feliz é o tanto com que te amo
malgrado tudo em meu outono
resta-me um pomo de saudade...

A. Estebanez
(Poema dedicado à encantadora
amiga Stella Queiroz Lustosa)

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 2)


(Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!)

Encheu a Torre do Tombo
encheu a Torre de Pisa
a Torre Velha da outra Banda
encheu a Torre de Eiffel
mais a Torre de Belém...
Encheu a Torre de Londres
mais a Torre de Babel
e a Torre de Quixeramobim
(se é que havia torre de Quixeramobim)
e não havendo mais torre
nem na terra nem no céu,
encheu a Torre do Reino
que era Torre de Marfim...

Encheu de dobles mazdobles do bom riir
daquela grei
que El-Rei em trobas não sabia mais
ser rei:
– se fosse assi que ela veese
das que Alá sou, ca o non sey...

A. Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 3)


(– se fosse assi que ela veesse
das que Alá sou, ca o non sey...)

Froissart deu a Fernão Lopes
que passou para Deschamps
que passou para Boccaccio
que passou para Chaucer
que passou para Villon
que passou a Dom Manuel
que mandou passar a D(i)ante
o que dantes já sabia...

Raquel, Francesca... Quimera!
– Nessun maggior dolore
che recordarsi Del tempo
fellice nella miséria.

Ó naturaleza Del dire!
Ó Lauras! Ó Eneidas! Ó Beatrizes!
Amantes infelizes, posto que amadas,
Desamadas porém, pois que felizes!
O leito de Procusto, a língua e o látego.
A concepção mundana sublimada.
O parto natural, “la prima-donna”.
Umbral da renascença latinada...

A. Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 4)


(O parto natural, “la prima-donna”.
Umbral da renascença latinada...)

Petrarca estava no Lácio.
Tomara-lhe o laço Virgílio que roubou o sono de Horácio
que acordara Quintiliano que tirara Tito lívido
do dormitorium romano...
Pé de ouvido ouvira Ovídio
Tacitamente chamar a Tácito de cicerone de Cícero.
O que deu a Bessarion o contorno bizantim
do gazel do buono stil adornado de latim.

Langue d’oc! Oh, Bernardim!
Ó crisfalbernardimento!
Bom mesmo é botar na língua
um cantar de veira de rio
ó son d’as oliñas ó vento
rimas leixas no jardim...
Êh, esperança coisificada
do Eu virado pra dentro (doeu)
só contemplado por Mim...

A. Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 5)


... Falar de veira de rio
rir-beirão que se dizia
da língua que se falava
se falava e se entendia...

Bernardimente se ouvia
a quem gilvicentemente
falasse samirandando
e ouvisse ferreiramente:

– Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua e, lá onde for,
vá senhora de si, soberba e altiva...

A. Estebanez

UM SONHO ENTRE NÓS


Põe o sonho onde te ponho
ou deixa que o leve o vento
se não te restar mais sonho
faz sonhar teu pensamento.

Nenhum sonho vai embora
que não possa mais sonhar
como a insônia é a demora
que aguarda o sono voltar.

Como a noite é a memória
do amanhã que vai chegar
nenhum sonho tem a hora
para um sonho descansar.

Põe um sonho em tua vida
e a minha deixa sem nada
mas na estação da partida
não deixa a tua espalhada.

Não é bem que vás agora
com o teu jeito de sonhar
teu sonho quer ir embora
mas o meu não quer ficar...

A. Estebanez
(Poema dedicado à generosa amiga
Maria de Fátima Alfredo Guimarães)

NOTURNO 2


Também quero a prostituta
encantada em trajes pretos
despertando meus sentidos
com a dor de seus gemidos
nos ouvidos de meus becos.

Quero a festa da penumbra
do estupro da adolescência
quero devolver-lhe a calma
com que me roubou a alma
sem levar toda a inocência.

Vou ser dela o bem-amado
pelas sem-razões do amor
com as culpas confessadas
pelo amor das mal-amadas
com os requintes do pudor.

Uma dama enquanto é dia
quando noite é depravada.
Porém tanto ela me adora
que noite pra ela é aurora
e amar é como a alvorada...

A. Estebanez
(Uma homenagem especial ao
Carlos Drummond de Andrade)

CANTINHO DA SAUDADE


Ela soltou-se de um sonho
como quem acorda o beijo
no instante da eternidade.

A todo o instante suponho
ser um sonho meu ensejo
de sonhar de ser verdade.

E ela se apegou ao sonho
e me fez sentir num beijo
impressões de eternidade.

Mas ela perdeu meu sono
e eu durmo com o desejo
num cantinho da saudade.


A. Estebanez
(Poema dedicado à amiga
Karolina Barbosa – “Karol”)

ALGUMA ANGÚSTIA


Não suporto esse perfume
com lembrança de partida
e não suporto o queixume
desta angústia consentida.

Não suporto esses jamais
dos meus dias de finados
da memória de meus pais
nos jardins abandonados.

Nem suporto esse destino
dos meus mares afogados
num naufrágio vespertino
de sonhos não navegados.

Não suporto mais saudade
não suporto o nunca mais
nem suporto a eternidade
dos meus navios sem cais...

A. Estebanez

VOZES E ESTRELAS


Ah, como poeta
eu tenho, Senhora,
perdidos meus olhos
na viagem noturna
de tantas estrelas...
Mas diga, Senhora,
que estrelas são essas
na luz dos teus olhos?
Seriam perguntas?
Irei respondê-las?
Que estrelas são essas,
são essas estrelas
de vagas promessas?
Responda, Senhora,
que estrelas são essas?

Tenho na alma milhões de madrugadas
levo músicas dessas nunca ouvidas e outonais...
Mas só não sei que vozes serão essas
que em tua boca são gotas musicais...

Responda, Senhora,
que vozes são essas
tão meigas na boca?
Reflexos celestes
de ânsias atrozes?
Que vozes são essas,
serão essas vozes
de vagas promessas?
Senhora, responda,
que vozes são essas?

A. Estebanez
(Cantiga in “Canção Que Vem de Longe” – 1966
Homenagem a Alphonsus de Guimaraens – 1870)

PERDÃO DE AMOR


Passo noites bordando com retalhos
pedaços dos momentos de ternuras
com que fiz das estradas os atalhos
perdidos entre estrelas de venturas.

Não sei o que falar dos espantalhos
que falaram de mim essas loucuras
de caminhar no céu entre cascalhos
por amor e prazeres de aventuras...

Jamais pensei que dor doesse tanto
de amor e que de mero desencanto
padecesse de espinhos minha flor...

Levo culpas, mas não resta culpada
minh’alma por princípio inocentada
perante um justo tribunal de amor!

A. Estebanez
(Poema dedicado à poetisa
Glória Maria de Anchieta)

DESEJO DE AMAR...


Eu pus minha vida no vento
e o vento aprendeu a cantar
levando-me todo o lamento
do encanto na brisa do mar.

A vida era todo o momento
que o vento deixava passar
na breve cantiga do tempo
na ausência infinita do mar.

E não era paz ou tormento
tentar ir-me embora e ficar
à beira do amor ao relento
ouvindo o lamento do mar.

Então pus o corpo sedento
e o ventre da brisa no mar
e a alma salgada do vento
refez meu desejo de amar...

A. Estebanez
(Poema dedicado à amiga
Elisabeth Zamboneti Rylko)

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