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29 de mai de 2009

MOVIMENTO DA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA NO MUNDO VIRTUAL


Por *Afonso Estebanez

Substancialmente, tem havido pouca alteração culturalmente revolucionária no atual ambiente da chamada poesia contemporânea no Brasil, a despeito do advento do privilégio da comunicação digital, esse democrático acerto de contas entre a ciência tecnológica e a história da comunicação humana.

Os grandes repórteres da literatura universal do passado também teriam usado o mesmo sistema tecnológico “moderno” se pudessem voltar ao cenário contemporâneo. E nós, os das artes, ciências e letras da atual geração, estamos inseridos neste contexto em decorrência, apenas, do fato histórico de estarmos vivos no momento do milagre da tecnologia. Mas historicamente a literatura brasileira continua na vertente do sincretismo cultural, enquanto fruto da combinação de concepções artísticas de tendências globais diversas, numa fusão de elementos às vezes antagônicos, mas culturalmente reverentes à herança do passado histórico da literatura estereotipada do “pré” e pós-modernismo. A atual poesia brasileira é produto deste fenômeno cultural, fracionada pelos diversos movimentos regionais desarticulados pela sedução do síndrome da contradição humana.

Do ponto de vista da velocidade do estreitamento tecnológico no campo da comunicação, a produção artística brasileira continua transmitindo ecos sintonizados com a tradição visual do século passado, a despeito dos “futurismos”, dos “cubismos”, dos “concretismos”, das “vanguardas”, das “marginalidades”, das “alternatividades”, dos “modismos” que, como produto final, não representam renovação culturalmente substancial das chamadas escolas tradicionais – já superadas – dos “ismos” que, nada obstante as suas idiossincrasias e contradições próprias da arte experimentalista no país, antecederam, com registros – histórico e social – igualmente contemporâneos, aos atuais movimentos artísticos brasileiros, em particular os literários.
Entendo, assim, que os avanços proporcionados pelo mundo digital na esfera da linguagem ou da técnica de qualquer produção artística, pluralista, anarquista, marginal, contestatória ou reacionária, na verdade não trouxeram transformações fundamentais no contexto da arte contemporânea culturalmente obediente aos antigos cânones da arte neoclássica, levando-se em consideração que sempre haverá – face ao conceito de atemporalidade – uma tendência irreversível da arte contemporânea para a controvérsia cultural fundada nas contradições humanas modernamente expressas pelos inúmeros recursos e imagens da lingüística e da metalingüística.

Continua intransponível, portanto, a magia da expressão literária tradicional que temos apregoado aqui e alhures, assente na beleza da arte da comunicação humana através da linguagem materializada segundo a combinação dos sons e tons dos fonemas, palavras ou expressões, escritos ou emitidos oralmente para se referir à realidade ou à ficção inerentes aos mundos objetivo ou subjetivo, com habilidade, talento, equilíbrio, beleza e harmonia.
Não há necessidade de nenhum derrame de estudos analíticos, didáticos, pedagógicos ou metodológicos da literatura contemporânea, porquanto a lingüística convencional vem sendo aos poucos superada pela compreensão da ciência da metalingüística, que no conceito dos estudiosos do século passado (Bakhtin na poética de Dostoievski) descreve os aspectos não verbais da comunicação que englobam o tom de voz, o ritmo da fala, as pontuações e outras características que vão além da palavra falada, a nos lembrar que extraímos dela o significado tanto dos termos usados como da forma com que eles são expressos, evidenciando aqueles aspectos da vida do discurso que ultrapassam os limites da lingüística dogmática.

“Alguns teóricos são radicais ao dizer que não existe poema sem o chamado ritmo. Seria o ritmo a base fundamental do poema. A metrificação é uma decorrência do ritmo. Aliás, alguns defendem que deve haver algum tipo de métrica mesmo em versos livres. Já outros, dizem que o tema é a coisa mais importante a se considerar num texto que se pretende ser um poema. James Joyce privilegiou o estilo e a linguagem. Jorge Luis Borges apostava nas metáforas. Alguns puristas defendem a forma – as formas fixas – como base segura para se escrever um poema. Penso que estes são alguns dos elementos com os quais o poeta deve lidar. O mais importante talvez seja a possibilidade de alguém conseguir no meio disso tudo encontrar sua voz pessoal, seu estilo único (...)”, “numa escrita peculiar e autoral” (...). “Buscai primeiro uma poética pessoal e todo o restante vos será acrescentado!”.

O texto em destaque refere-se a conceitos emitidos por Tchello d’Barros, considerado um dos artistas contemporâneos – escritor, artista visual e viajante – mais completos do país, o mágico dos poemas curtos, juntamente com o poeta gaúcho Ademir Antônio Bacca, em entrevista concedida ao conhecido editor do site cultural “Alma de Poeta”, Luiz Fernando Prôa – notável escritor e poeta carioca – durante o XVI Congresso Brasileiro de Poesia, transcorrido no palco cultural de Bento Gonçalves/RS (2008), evento conhecido como um dos maiores formadores de opinião sobre literatura brasileira contemporânea, anualmente promovido pelo festejado poeta gaúcho mencionado, escritor, contista, jornalista e promotor cultural Ademir Antonio Bacca, Presidente do Proyecto Cultural Sur Internacional e Embaixador da Paz no Brasil de “Poetas del Mundo”, conhecido Movimento Internacional pela Paz, com representação e voz em quase todas as nações do Planeta.

Forçoso concluir, portanto, que a poesia contemporânea no Brasil, em nome da velocidade imposta pela tecnologia virtual, repousa num confuso estado de flerte com os movimentos iconoclásticos dos anos 20, porém ao avesso, como aparente rejeição ao receituário cartesiano da época: sabe muito bem o que quer, sem que precise saber do que não quer. Talvez por isso os estardalhaços dos vanguardistas de hoje são bem mais festivos do que aqueles mais inocentes dos anos 60, em que os modernismos se confundiam com a variação de facções poéticas regionais.

Mas no mundo virtual está impondo características modernas indeléveis.
Por fim, como a proclamação da poesia “neo-parnasiana” consagrada constitui ainda o fundamento da cartilha da cultura poética no país, extrai-se que não há divergências entre as cores artísticas desse contagiante arco-íris de correntes literárias. Há apenas desencontros...

O poeta Claudio Willer (1991) teria sintetizado a poesia contemporânea no mesmo patamar de sua época: “Infelizmente a negação das vanguardas em seu aspecto mais enfático e autoritário tem servido para justificar o academicismo, a volta ao passado, ou então, sub-repticiamente, a escolha da tendência certa da vanguarda, disfarçada de contemporaneidade ou até modernidade”. E isto é como repetir a dança de uma valsa vienense no último baile da ilha fiscal, excitado pelo perfume glamouroso da corte neo-parnasiana...


*AFONSO ESTEBANEZ STAEL, natural de Cantagalo-RJ onde nasceu em 30 de outubro de 1943, é advogado, escritor, cronista, poeta, jornalista, crítico literário e verbete da “Enciclopédia de Literatura Brasileira” e do “Dicionário de Poetas Contemporâneos”, editados pelo Ministério da Educação e Cultura. Cursou as Faculdades de Direito e de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal Fluminense. Foi premiado nos 1º, 2º e 3º Torneios Nacionais de Poesia Falada (1968/69/70) promovidos pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.
Foi vencedor do Primeiro Concurso Estadual de Poesia do Advogado Fluminense (87).Tem obras publicadas em livros, jornais e revistas editados no país. Em 2007 venceu o I Concurso de Literatura do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (prosa e verso). Faz parte do movimento literário do "Alma de Poeta” (Rio de Janeiro). É membro da Academia Brasileira de Poesia e recentemente recebeu a Comenda de Cônsul do Movimento Mundial pela Paz de "Poetas del Mundo" para representar sua terra natal - Cantagalo/RJ.

28 de mai de 2009

O TAMANHO DO AMOR...



O amor pode ser muito mais simples
do que abrir a janela da alma de manhã
e contemplar aquela flor mais obscura
que nasceu por acaso em teu jardim...

A flor vai surpreender-te tanto
que não terás mais tempo para nada...
Nem mesmo para não acreditar
que no instante tão breve de uma flor
há um instante eterno para amar...

Ou muito mais que isto, pensarás
que és teu próprio mito de felicidade
se te fizeres brisa da manhã chuvosa...
Perceberás que o relógio do teu tempo
fica parado ao passar a eternidade
no perfume suave de uma rosa...

E Deus será teu cúmplice de êxtase
e proverá a eternidade para a tua flor...
É juízo d’Ele que tu tenhas a medida
das raízes mais profundas desta vida,
do tamanho do teu imenso amor!


Afonso Estebanez
(Dedicado à minha doce amiga
Luise Borghesi)

27 de mai de 2009

RENDIÇÃO



Como quem frustra uma dor
é que eu te entrego uma flor
que em mim havias deixado.

Não quero que me devolvas
a tua flor entre outras coisas
que me arrancas do passado.

Seja quando ou onde eu for
lá já esteve um fausto amor
não que o tivesses plantado.

Não quero que me devolvas
teu amor entre outras coisas
que bem pouco tens amado.

Mesmo tão incompreendido
se tens dor do amor perdido
eu te dou um já encontrado.

Afonso Estebanez

"SONETO DA GRATIDÃO"



Apesar de minh’alma naufragada
nesse cálice amargo de orfandade
compraza a Deus a via iluminada
que te guia da sombra à claridade...

Malgrado a desventura consolada
por velados suspiros de saudade,
apraz aos céus saber-te retornada
para ensinar o amor na eternidade...

E entre flores e lágrimas e afetos
está o adeus dos filhos prediletos
que o acaso da vida pôs dispersos...

E me coube, a despeito desse pranto,
a glória de render-te com meu canto
a gratidão que trago nestes versos...


A.Estebanez

19 de mai de 2009

RELANCE


Quando me olhas vagamente
com o olhar de mel das algas
eu me lembro dos momentos
daqueles meus velhos tempos
de caçador de esmeraldas...

Afonso Estebanez – 19.05.09
(À minha filha Johanna pelo
seu aniversário)

‘ROSAS DE SAROM’ POR QUÊ?



‘Sarom’, que em hebraico (shãrôn)
significa ‘planície’, referindo-se, antigamente,
à maior parte da região costeira semidesértica
situada ao norte da Palestina, antes densamente
coberta de carvalhos é, hoje, principalmente ao sul,
um dos mais ricos distritos agrícolas de Israel,
coberto de bosques e pomares verdejantes
destinados ao cultivo de flores e frutas
cítricas, em que predominam
os densos laranjais.No passado, ao norte, Sarom
era uma região pantanosa com
esparsos vales por onde escoavam
pequenos riachos entre vegetações
rasteiras e dunas de areias avermelhadas
do deserto, formando um grande cinturão de
terras inapropriadas à povoação. A leste da planície,
nos sopés das colinas samaritanas, situava-se Socó,
centro distrital sob o domínio de Salomão e antiga
sede dos reis vassalos derrotados por Josué. Ao
sul, entre Lode e Ono, situava-se o ‘Vale dos
Artífices’, para onde acorriam os hebreus
exilados que regressavam do cativeiro na Babilônia.
Segundo a tradição, cobria o vale o ‘esplendor’ da densa vegetação que servia
de pastagem aos ebanhosdo rei Davi.
Entendo pois – sem divagações místicas –
que a ‘Rosa de Sarom’ referida por Salomão em seus ‘Cantares’ (2:1-3)
era uma figura de linguagem que o sábio
poeta do antigo testamento usava para comparar
a formosura da mulher amada com o esplendor
jacente da região sul de Sarom, até porque, a despeito
da beleza dos ‘pastos verdejantes’ (alfombras) a que
Davi se referia no Saltério (Sl 23), as únicas floresde coloração avermelhada (a cor da sensualidade)
que abundavam sobre aqueles verdes prados de
vegetação rasteira eram as anêmonas,
os botões-de-ouro, as tulipas e aspapoulas.

As ‘rosas-de-sarom’não são, do ponto de vista
da botânica, as ‘Rosas deSarom’ da lirade Salomão.

Com meu canto, pois, eu celebro as‘Rosas de Sarom’ – o mistério do verbo eterno,
o amor encarnado em todas as flores que, como asrosas, constituem o símbolo nuclear do instintohumano mais sublime, por acaso sobrevivente
em nossos áridos corações transformados emplanícies solitárias, inapropriadas ao cultivodo Supremo dom do Amor.
Assim são asminhas‘Rosas de Sarom’, premonições poéticas da possibilidade de amor e
justiça afetiva entre os espinheiros,as urzes e as sarças atrofiadas de
nossos corações desertos...


Afonso Estebanez.

17 de mai de 2009

FANTASMAS DO AMOR


Se perceberes que há alguns fantasmas
no véu do quarto escuro de teu coração
não grita e não acende a luz nem chora.

Sustenta essa frieza que é da tua calma
porque os vultos são teus pensamentos
procurando no escuro pela minha alma.

E se sentires de manhã os passarinhos
em larga evolução de cânticos de amor
no ouvido das anêmonas de teu jardim,

não os espantes e não perde tua calma
eis pois sou eu cantando para tua alma
que a saudade deixou dentro de mim...

Afonso Estebanez
(Dedicado carinhosamente à amiga
Irlene Chagas *A Poetisa do Amor*)

ÚLTIMA ROSA DE SAROM


Além dos muros do meu coração aberto
os cantares das rosas que plantei no pó
são sensações da primavera no deserto
aquém dos muros dos jardins de Jericó.

E sou a Rosa de Sarom em teu desperto
coração tão infenso ao estar morto e só
em que se cumprirá o antigo manifesto
das rosas castas dos jardins de Jericó...

Bendito quem deixou as trevas pela luz
por ter plantado rosas no lugar da cruz
entre os canteiros dos jardins de Jericó

de onde a última Rosa de Sarom voltou
para ascender ao Pai a rosa que restou
além dos muros dos jardins de Jericó...


Afonso Estebanez

13 de mai de 2009


INTIMIDADE

Não foi, amada!
Não foi o orvalho
da madrugada...
Foi a lua na janela
que te surpreendeu
dormindo e chorou
desconsolada...

Afonso Estebanez

INTERMEZZO

A oficina do amor é o coração.
Quando se consumar a profecia
já não precisarão mais do profeta.
Quando se consumar a poesia
já não precisarão mais do poeta...

Por isso devo reinventar o amor
antes de reinventar a minha vida...

Vou conversar apenas com as flores
falar somente em bem-aventurança
calar-me para sempre como a alma
sepultada no fundo da esperança...

Eterno como a noite sobre a pedra
na história da canção despercebida...
Como o silêncio sábio da memória
das coisas simples
não compreendidas...

A. Estebanez

INICIAÇÃO DA LIBERDADE

A alma forja o bem na dor do mal
e o espírito aos lanhos da matéria...
Na carne a fome crava seu punhal
nas entranhas famintas de miséria.

Cada gota de sangue cada artéria
deflui do corpo o cáustico e letal
veneno em que declina deletéria
da alma a pátria amada e triunfal.

Mas já transcende a paz à tirania
ao desamor cativo a consciência
liberta dos porões da insanidade...

E lança de um clamor sem agonia
o sêmen genial da independência
sobre o leito nupcial da liberdade!

Afonso Estebanez

GRITO ABAFADO

O meu grito é sufocado.
Não parece que é grito.
Parece um grito falado.
Mas ele nunca foi dito.

É a pedra sob as águas
é mágoa de sentimento
é um grito de palavras
retidas no pensamento.

Corpo a corpo desafia.
É faca que cai da mão.
É como pedra que afia
os punhais do coração.

Como resto de festins
sobrevive dos jejuns...
Ele é a fome de todos
e mesa farta de alguns.

Sob a mira dos fuzis
é muralha de granito.
Ressoa a bala no eco
e retorna como grito.

E se me tiram a voz
é daí que me revolto...
O que se fala calado
ecoa muito mais alto.

A. Estebanez

FLOR DA ALMA

Vem desse amor eterno de você
uma canção tangida pelo vento
uma flauta no som do pensamento
que ressoa na alma e não se vê...

Brisa da tarde nos florais do ipê
num cântico de beijos ao relento...
Um feitiço de amor à flor do tempo
que vem sem precisar dizer porquê...

Uma canção de ser tão docemente
percebida... Tão leve se pressente
que a gente nem precisa perceber...

Basta ao amor plural de sua vida
saber-se a alma eterna e resumida
na alma de uma flor no alvorecer...

AfonsohEstebanez

(Poema dedicado a Geisa Gonzaga
Comunidade “Devaneios de Poeta”-DF)

FLOR DA ALMA

Vem desse amor eterno de você
uma canção tangida pelo vento
uma flauta no som do pensamento
que ressoa na alma e não se vê...

Brisa da tarde nos florais do ipê
num cântico de beijos ao relento...
Um feitiço de amor à flor do tempo
que vem sem precisar dizer porquê...

Uma canção de ser tão docemente
percebida... Tão leve se pressente
que a gente nem precisa perceber...

Basta ao amor plural de sua vida
saber-se a alma eterna e resumida
na alma de uma flor no alvorecer...

Afonso Estebanez

"SPLEENBORED"



Llorar por todo lo que se perdió
Lloro por mí, que me perdí de mí..
Por quién he sido – y si es que esto ocurrió…
Como yo soy… Y como lloro así.

Hasta llorar por quién ya me olvidó
Llorar por nada… Lo que no és tán malo…
Tan solamente llorar por llorar
Desde el comienzo de mi propio fin.

Dejadme quieto, borracho de asombro
Sin la resaca de todo mi llanto
De una pasión que vive en desatino.

Dejadme el llanto por mi amada rosa
Porqué aún creo que el rocío es canto
De la semilla en su final destino.

Afonso Estebanez
(Dedicado com carinho à minha Mestra
Maria Madalena Cigarán Schuck
Versão: Patrícia Neme)

FILHO DO SER OU NÃO SER

Não importa de qual profundo lago
emergiu-te o destino rumo à aurora...
Importante é que tenhas ao teu lado
um anjo que sorri enquanto chora.

Sou teu vale de esperas e ternura
que te virá do mar ou do deserto.
Se te vier amarga, é com doçura.
Se te vier de longe é de tão perto.

Não importa desatem as amarras
desse barco aportado no meu peito...
O amor pode singrar águas esparsas
sem afastar-se nunca de seu leito.

Não importa se praias adormecem
e sonhos se desfazem quando venta...
Importa é que os portos acontecem
pesar dos vãos açoites da tormenta.

Não importa as origens dos afetos
se a manhã e o crepúsculo se beijam
como as noites e os dias são trajetos
dos extremos da luz que se desejam.

Não importa a questão ser e não ser
quando o amor não precisa de razão...
Tu és meu filho! E basta-me saber
que meu cio há também no coração!

Afonso Estebanez

FIINDA DE AMOR À PAAY CHARINHO

Eu, senhor, d’amor coitado
por voss’alma fremosia
foi de tan enamorado
qu’eu chorand’assi dizia:

Suidade, suidade minha,
quando, quando vos veria?

Procurei-te pelos montes
pelas grutas santuários...
(dedos aflitos nas contas
profanas de meus rosários)
Ai, Deus! as águas das fontes
como as ninfas flutuantes
choravam nos estuários...

Quem viss’assi com’eu vi
com tal coita e tan velia,
ness’amor que padeci
de mi (n) tormenta diria:

Alma gêmea de mi (n)’alma,
quando, quando vos teria?

Mays estaveis na cidade
que dos campos não se via
no asfalto da puberdade
dos anjos da mais-valia...
Ai, Amanda de Saudade,
minha vasta claridade
aos poucos se apagaria...

Fremosura d’alvorada
mui louçana senhor mia
e tan muit’enamorada
que, partind’assi dizia:

Barqueiro do meu destino,
quando, quando vos veria?
Não enquanto morra tanta
a esperança conselheira
dos enforcados na ponta
do pau-brasil da bandeira...
Ai, cruzado em terra santa
o Amadis não se alevanta
de chorar a companheira!

Senhor mia, fin rosetta,
non me metta em romaria,
tanto amor em Leonoreta
de suidad’eu morreria...

Que baixinho perguntava:
quando, quando vos veria?

O remate da cantiga
foi à fonte e logo vem,
que cantiga sem remate
já nenhuma graça tem...

Dess’amor de mim senhor,
tendes voss’essa meestria...
Mas a vós, senhor, d’amor!
quando, quand’eu vos teria?

Afonso Estebanez

FATALISMO

Um dia podereis colher as rosas de vossos próprios jardins...
Um dia alguém acenará do outro lado da rua e vos dirá “Bom dia!”...
Um dia o expresso vai parar fora do ponto para embarcar um ancião...
Um dia podereis cruzar as avenidas sem temer balas perdidas...

Uma criança poderá sorrir compadecida de qualquer desconhecido...
As cadelas no cio poderão cruzar livremente pelos becos da cidade...
Os negros poderão exibir alegremente a moléstia racial dos brancos...
A liberdade poderá ser proclamada em paz na praça de Bucareste....

Mas vós estareis mortos de vergonha
no dia em que puderdes ostentar publicamente o gesto mais discreto
de como colher miniaturas de lua cheia nos ramos das videiras...
No dia em que esse chão, que é de pedras, for de estrelas...
No dia em que os canhões se transformarem em bicicletas de Pequim...
No dia em que a vergonha nacional
derrubar os seus muros de Berlim...

Ou já estareis mortos...
Definitivamente mortos...

Como morrem os pássaros...
Como morrem os poetas...
Como secam os jardins...
E se calam os profetas...

Como se exaure a esperança...
Como morrem as crianças
com suas almas desertas...

Afonso Estebanez

EU VOU

Se for preciso reinventar
a vida e me fazer de conta
e retomar a alma já pronta
por onde nada mais restou...
Eu vou!

Se for preciso restaurar
a dor e me doer de novo
no cio ardente e copioso
do mal ausente que ficou...
Eu vou!

Se for preciso reanimar
a luz extinta no crepúsculo
imponderável do minúsculo
grão de areia que se apagou...
Eu vou!

Se for preciso me afogar
no charco por mero martírio
ou por razão ou por delírio
o lírio diga por quem vou...
Eu vou!

Se for preciso reinventar
o amor numa paixão suicida
e reencontrá-la além da vida
na lida que a paixão deixou...
Eu vou!

Afonso Estebanez

CANTO DE ABRIÇÃO
(Folclórico de Folia Reis)

Tempo haverá em que
o canto ficará
completamente mudo.

A lágrima será como semente
da palavra salgada
que os olhos plantarão
entre os lábios...

Meu senhor dono da casa
escuta prest’atenção
vem abrir as vossas portas
pra esse nobre folião...

Devastarão casa por casa
cada palmo de chão será salgado
arrancarão todas as portas
e janelas dos sentidos
como o corpo num ritual
de sucessivos fluxos menstruais.

Sempre a história se repete
como a fábula inventada
por um rei que tem de tudo
e um povo que não tem nada...
Mas eu atirarei minha canção
no telhado da minha casa
e a chuva arrastará meus versos
pelas calhas esgotos e canais
e os desaguará em mar aberto
como barcos que despertam
na restinga da manhã...

As noites se perderão
para sempre de seus dias
mãos cheias virar-se-ão
sobre o chão das mãos vazias.

Transmitirei meu canto
boca a boca
como flor que germina
pelo olhar.

Espalharei meus barcos no vento
e minhas asas no mar...

No banquete solidário
da miséria consentida
só não morre quem não come
porque a fome é dividida...

Cada grito renascerá
no som do apito de fábrica
cada pranto reprimido
será chuva derramada.
Meu pai se chama João Caco
minha mãe Caca Maria
juntando Caco com Caca
sou filho da cacaria...

De verde as folhas lavadas
nos arbustos das colinas
aos pingos encharcarão
as ramagens de resina...


A sobra que cai de cima
não se bebe nem se come...
Como água não mata a sede
como pão não mata a fome...

Nossa voz terá o calor da luz
no interior de uma choupana
na floresta.
A chuva correrá por claros vales
como fios de lã levados pelo vento.
Os pássaros imigrarão de seus mistérios
e as flores da manhã se regozijarão
como sinos diáfanos de luz
que não se ouvem senão com o coração...

Não quero toda a farinha
somente um pouco do pão
com que vossa mãe Maria
esposou meu pai João...

Os pés dos pequeninos pisarão lá fora
não como as botas que hoje pisam
a relva da esperança
fecundada pelo orvalho...
Eles terão o seu caminho certo
como as reses os sulcos dos campos.

Quem sobreviver verá
em passos desencontrados
o diabo passar no rastro
sob as cinzas dos reisados...

Todos entoaremos
uma canção que não se ouvia mais.
Os olhos verão coisas inacreditáveis...

E os homens se tornarão
mais unidos por amor
como irmãos num só rebanho
pela voz de um só Pastor!
Nosso ódio não tem mais ira.
Andamos de pés trocados
festejando os desmomentos
dos remates acabados...

Meu senhor dono da casa
escuta prest’atenção...
Vem abrir vossa loucura
pro meu canto sem razão.

A. Estebanez

(O poema “Canto de Abrição” foi o vencedor do Concurso de Poesia do Advogado Fluminense, patrocinado pelo Departamento de Integração Cultural da Ordem dos Advogados do Brasil no Estado do Rio de Janeiro – Subseção Niterói – “Prêmio Varig 1988”. Comissão Julgadora – escritores: Luiz Antônio Pimentel, César de Araújo, Alexandre Kellner e Henrique Chaudon)

Afonso Estebanez


ERRO DE FATO

Maria dava seu leite
para o filho do patrão.
O patrão, porém, comia
(que Maria lhe servia)
toda a carne do João...

Mas João não tinha nada
que tomar satisfação!...
Então o causo se acaba
(por amor tudo desaba)
na evidente conclusão:

Maria morreu na frente
do revólver do patrão...

Afonso Estebanez

ENTRE PARÊNTESES

Minha vida não é tua
nem é minha tua vida...
Somos partes
fragmentadas
de uma ânfora
partida.

Não são tuas minhas liras
nem tuas liras são minhas...
Ocultamos
a alma nua
na paráfrase
das linhas.

Tuas mágoas não são minhas
minhas mágoas não são tuas...
Somos os lados
dessas calçadas
desencontradas
das ruas.

Por mim não te desesperas
nem por ti eu me desatino...
Somos apenas
os parênteses
de uma linha
do destino.

Afonso Estebanez

ENAMORADOS...

Enamorados como a sombra e o cipreste
os dois lados da alma aos corpos reunida
vestida como um pássaro que se reveste
como a rosa de luz e tanto amor de vida...

Enamorados de alma isenta do cansaço
por onde caminhar não seja o lado triste
da ave marinha que pernoita no regaço
dos crepúsculos desenhados sem limite...

Enamorados onde o além é o horizonte
onde ao longe cintila a noite já alunada
e onde entre as maçãs da face rutilante
reveste-se de luz o olhar da enamorada...

E de tal modo que em sua carne ardente
envolve-se a paixão na carne hirta e fria...
E como que entrementes há suavemente
que retardar a noite até que venha o dia...

Afonso Estebanez

8 de mai de 2009

ENCONTRO MARCADO


ENCONTRO MARCADO

Teu futuro é o meu agora
do teu tempo despertado
o chegar antes da aurora
de teu encontro marcado

o que chega vai embora
em pedaços de passado
o presente não tem hora
só meu agora esperado

meu amor estava longe
e nem Deus sabia onde
teu amor o encontraria

foi preciso então morrer
e esperar meu renascer
para ver se eu te veria...

Afonso Estebanez
(Dedicado à amiga
Rosilene Barreto Martins)

PERDÃO DE AMOR


PERDÃO DE AMOR

Passo noites bordando com retalhos
pedaços dos momentos de ternuras
com que fiz das estradas os atalhos
perdidos entre estrelas de venturas.

Não sei o que falar dos espantalhos
que falaram de mim essas loucuras
de caminhar no céu entre cascalhos
por amor e prazeres de aventuras...

Jamais pensei que dor doesse tanto
de amor e que de mero desencanto
padecesse de espinhos minha flor...

Levo culpas, mas não resta culpada
minh’alma por princípio inocentada
perante um justo tribunal de amor!

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à poetisa
Glória Maria de Anchieta)

AMAR DO VERBO AMOR


AMAR DO VERBO AMOR

O amor não se conjuga no passado.
Contudo, se o amor de Deus passar...
Amor é instinto humano sublimado
e instintos não se podem conjugar...

Não amo amor que deva ser amado
segundo me convenha o verbo amar...
O amor é graça e nasce conjugado
como o fascínio que me traz o mar...

O amor é dom e nunca se ressente
do menos-que-perfeito do presente
nem do perfume se ressente a flor.

Juro por todo o amor que me doeu
que tanto que me dói ainda é meu
o presente de amar do verbo amor...

Afonso Estebanez
(Dedicado ao poeta carioca Théo Drummond
– membro da Academia Brasileira de Poesia)

SE NÃO FOSSE O LIRISMO...


Tela de Pino

SE NÃO FOSSE O LIRISMO...

Pois que farto de mim meu verso tem andado
os poemas me fazem para que me entendam!
Porque o lirismo de meus versos é extremado
componho versos para que me compreendam!

Nem sei porque o lirismo tem que ser julgado
se não há flor de que poemas se arrependam
se nem o amor por desamor me é condenado
e na paixão quantos mistérios se desvendam!

Falo aos gritos de mágoas e o luar me escuta
a alma vai à guerra e é meu amor quem luta
nem sei porque o lirismo infenso a tanta lida!

Meus versos sem lirismo é fado sem destino
como polens de amor no vento em desatino
sem as rosas que dão sentido à minha vida!...

Afonso Estebanez
(Dedicado ao poeta petropolitano
Sylvio Adalberto Nascimento – Presidente da
Academia Brasileira de Poesia)

DOCEMENTE AMARGO


Tela de Pino

DOCEMENTE AMARGO

Teu amor é como a pluma
de uma luz na madrugada
não ama aurora nenhuma
que não a luz da alvorada...

Meu amor foi uma escuna
sem partida nem chegada
na noite escura da bruma
de uma dor não dissipada...

Teu amor é como os rios
conduzindo meus navios
que se perderam do mar...

E o amor doeu-me tanto
como dói só por encanto
pelo encanto de te amar...

Afonso Estebanez
(Dedicado com carinho
à amiga Meriane Pinheiro)

ADÁGIO COM SENTIMENTO



ADÁGIO COM SENTIMENTO

Ah, os dedos entre as pétalas de rosas brancas
sentimento da alma em todo o amor do mundo
nas teclas de um piano as flautas doem tantas
quantas doem as mágoas de meu ser profundo.

Cantata ou fuga entre crepúsculos em quantas
semibreves de outono vai-me o amor fecundo
esse cantar de sonho com que tu me encantas
segundo o nunca mais de apenas um segundo.

O compassado amor – em dor menor – talvez
enquanto a noite for meu lume inda que tarde
o compensado amor – em dor maior – jamais!

Que toda aurora é o anoitecer de alguma vez
meu dia é essa canção composta de saudade
e minha noite quase sempre é um nunca mais...

Afonso Estebanez
(Homenagem ao amigo Juarez Santos)

CENTELHA

CENTELHA


Nunca espero desta vida

o que a vida não me deu

minh'alma compadecida

é do amor que renasceu.


Corações a toda a brida

o meu nas beiras do teu

mas tu amavas dividida

sem saber qual era meu.


Montanhas a fé remove

e o amor é que comove

a centelha dessa chama


que me dói e não apaga

e me diz que não acaba

que o amor inda te ama.


Afonso Estebanez

(Poema dedicado à gentil

amiga Priscilla Basílio)


MYSTERY


MYSTERY

Como a noite no encontro vagaroso
com o dia nas fímbrias do horizonte
vem teu sentido ao ímpeto amoroso
de me tomar a mim por teu amante.

Porém não sei haver tão venturoso
destino que me mate e desencante
desse amor feiticeiro e olhar ditoso
de um gozo que me faz agonizante...

Amar é abismo oculto numa estrada
pois que mistérios de princípio e fim
o que nem mesmo Deus deve saber...

Da alcova de minh’alma apaixonada
meus olhos dizem coisas sobre mim
que meus lábios jamais podem dizer...

Afonso Estebanez
(Homenagem Especial a Raul de Leoni
– Academia Brasileira de Poesia)

Uma flor só se envolve com o vento


Uma flor só se envolve com o vento
uma rosa se envolve sem queixume
não se colhe uma flor por desalento
ou pelo assédio intenso do perfume.

Se queres teu amor refaça o tempo
vê como faz um simples vaga-lume
que gera a luz ao fado do momento
e faz que a noite sua aurora exume.

Deixo-te rosas fartas sem espinhos
esvaziando de mim tantos carinhos
para logo voltar se nem sei quando...

E quando o dia anteceder a aurora
verás assim que nunca fui embora
pois nunca paro de ficar chegando...

Afonso Estebanez
(Dedicado às comunidades:
“Confrarias Poéticas I e II”
Porto Alegre e Joinvile – RS)

ALMA DE POETA


ALMA DE POETA

Exuma desse amor que a poesia
é dom da liberdade de um poeta
como a aurora na estrela luzidia
é dom do novo dia que desperta...

As almas dos poetas são magia
onde o ser infinito se completa
em orgasmos de paz ou agonia
feliz de reviver só do que resta...

Poeta não é presa dos sentidos
é o exílio dos pássaros banidos
de alma livre ou cativa se quiser...

Só há um ser de amor e alma repleta
capaz de cativar a alma de um poeta:
é o ardoroso coração de uma mulher...

Afonso Estebanez

SONHO ANDARILHO


SONHO ANDARILHO

O sonho é o andarilho da memória
e minha alma é apenas sua estrada
onde o amor recomeça a trajetória
por atalhos de acesso sem entrada.

Nem sempre há personagem numa história.
Nem sempre uma lembrança é relembrada.
Mas quase nunca o pesadelo é uma aurora
para alguns sonhos dissipados na alvorada.

Ai de mim, tua rota de lembrança...
Ai de ti, meu roteiro de esperança
remida pelo olhar dos passarinhos...

Contorno os rios tortos e consulto o mapa
para chegar, inda que morto, àquela etapa
onde morrer seja melhor em teus carinhos...

Afonso Estebanez

SONETO DA CANÇÃO REPOUSADA


SONETO DA CANÇÃO REPOUSADA

Eu devo acontecer como acontece a noite
em teu corpo de rosas repousado em mim.
Os ventos passarão calados sem pernoite
e a noite transformada em relva no jardim.

A voz da chuva não será nem leve açoite
pois velarei teu sonho como um querubim.
Então te lembrarás de mim: o tempo foi-te
passando e de saudade fui ficando assim...

De olhos abertos para a noite remansosa
entre os vestidos da lembrança vagarosa
que ainda repousa no silêncio da canção...

Eu devo acontecer como acontece a flor
renascida das cinzas da canção de amor
que guardo nas ribaltas do meu coração...

Afonso Estebanez

POETA & POEMA



Nunca soube que poeta

vai a sonho sem poesia.

Ou que a lira do profeta

firma a fé sem profecia...


Meu amor sequer sabia

que curva é a linha reta

de um sonho à fantasia

que desfeitos não afeta


até que a morte desfaça

a distância tão pequena

ou que a vida me refaça


o despedir-se sem pena

o poeta – é o que passa

o que fica – é o poema...


Afonso Estebanez

POEMIA



POEMIA

Observo quando e como escreves versos
percorrendo as veredas dos teus sonhos...
Contemplo aos teus segredos submersos
a alma envolta em tempos mais risonhos.

Tu reencontras teus sonhos já dispersos
no ofício de encontrar os que tristonhos
perderam-se no tempo entre os reversos
dos anos e os encantos de entressonhos.

Chão de estrelas, teu céu de devaneios!
Tu caminhas, poeta, aos fins dos meios
entre as safras de amor e não de penas...

Em versos te devolvo a oferta e os dias
e flores que me deste o amor e a poesia
dos versos que compõem meus poemas...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à poetisa Marta Peres)

SONETO DA CANÇÃO REPOUSADA


SONETO DA CANÇÃO REPOUSADA

Eu devo acontecer como acontece a noite
em teu corpo de rosas repousado em mim.
Os ventos passarão calados sem pernoite
e a noite transformada em relva no jardim.

A voz da chuva não será nem leve açoite
pois velarei teu sonho como um querubim.
Então te lembrarás de mim: o tempo foi-te
passando e de saudade fui ficando assim...

De olhos abertos para a noite remansosa
entre os vestidos da lembrança vagarosa
que ainda repousa no silêncio da canção...

Eu devo acontecer como acontece a flor
renascida das cinzas da canção de amor
que guardo nas ribaltas do meu coração...

Afonso Estebanez

7 de mai de 2009

POETA & POEMA




Nunca soube que poeta
vai a sonho sem poesia.
Ou que a lira do profeta
firma a fé sem profecia...

Meu amor sequer sabia
que curva é a linha reta
de um sonho à fantasia
que desfeitos não afeta

até que a morte desfaça
a distância tão pequena
ou que a vida me refaça

o despedir-se sem pena
o poeta – é o que passa
o que fica – é o poema...

Afonso Estebanez

JORNADA




Eu marco meus desencontros
de mim mesmo em alvoradas
para que dos meus encontros
as manhãs não fiquem tardas.

Os sonhos que tenho prontos
são de outras vidas passadas,
mas retraço seus reencontros
quando estão desencontradas.

Não pergunto nem respondo
de chegar eu não sei quando
aonde o amor é minha fome.

Pouco importa o entardecer
se na aurora eu vou morrer
da paixão que me consome...

Afonso Estebanez

Entre luz & Sombras

ENTRE LUZ & SOMBRAS


Coloco-me de costas para o sol nascente

a sombra me vai só na via da lembrança

e o meu amor vai só na alma indiferente

jacente na canção remota da esperança.


Lembro de sonhos do futuro no presente

de reviver amores que o esperar alcança

das rosas fugidias de um jardim ausente

a despeito dos amanhãs em abundância.


A noite é feita de uma luz remanescente

a beirada da aurora é que me recomeça

pela estrada de volta para o meu futuro.


Vaga-me a alma pelos restos do poente

chegar é só o sonho para quem começa

e começar é conseguir andar no escuro.


Afonso Estebanez

(Dedicado ao notável poeta

Jenário de Fátima)

A FOTO NA PAREDE

A FOTO NA PAREDE


Meu retrato na parede

só traz uma novidade:

o fundo tinto de verde

ficou tinto de saudade.


O olhar pálido de sede

no poço da eternidade

é a luz filtrada na rede

da grade da liberdade.


Uma ruga me comove

de ter restado na vida

do nada que me ficou.


E só o sonho se move

na retina amanhecida

desta foto que restou.


Afonso Estebanez

(Dedicado com muito carinho

à amiga Lucia Borini Simões)

4 de mai de 2009

DÉCIMA ROSA DE SAROM


No princípio era a Rosa concebida
pelo Verbo da luz que está na flor
e era a rosa uma luz além da vida
no princípio da luz além do amor.

Toda Rosa é de origem conhecida
da vida onde não mais o desamor
e onde jamais a flor incandescida
dos roseirais onde floresce a dor.

Como sinto a saudade antecipada
do perfume das rosas em jornada
para a futura esfera de meu ser...

Eu tenho da verdade esta certeza
como tenho da rosa sobre a mesa
o encanto do condão de renascer.

Afonso Estebanez

AMOR DE CARNAVAL


Se de fato tu queres me encontrar
apesar de me teres transformado
na tua multidão, tu deves procurar
no alvoroço do baile triunfal
de teu tumultuado coração...

Eu sou aquele que tu vês se levantando
daquela sombra que virou teu chão.
Repara como eu engoli meu sim
para não ter que devolver teu não...

Se de fato tu queres me encontrar,
eu sou aquele que já foi embora
com uma flor na mão...

Afonso Estebanez

DE ALMA NO VENTO...



Ainda que seja só em pensamento
não me procurem onde não estou.
Eu não fiquei no cântico do vento,
pois a canção do tempo me levou.

Talvez meu coração tão desatento
não tenha percebido o que passou.
Ainda que seja só em pensamento
não me procurem onde não estou.

Eu não estou num doce desalento
por amor tão sonhado que passou.
E nem estou num agridoce alento
de sonhar o que o sonho recusou.

Não me procurem onde não estou
ainda que seja só em pensamento.
Morre o corpo num resto que ficou
de minha alma levada pelo vento.

Afonso Estebanez – 28.04.2009
(Dedicado a Maria Madalena Cigarán Schuck
– pelo seu aniversário – pleito de gratidão pela
divulgação de minha poesia no sul do país)

O VERDE VALE DA MINHA CIDADE


É o ribeirão exausto procurando
no remansoso coração da tarde
silenciar-se de chegar cantando
ao verde vale da minha cidade...

Pernoita a lua atenta no telhado
das casas onde tênue claridade
revela o amor em pelo revelado
no verde vale da minha cidade...

A saudade se dói de andar à toa
no lado vago de minha saudade
de ver o trem sumindo na garoa
do verde vale da minha cidade...

Ha canteiros de rosas e jacintos
no caminho da vaga eternidade
da orla dos ribeiros não extintos
no verde vale da minha cidade...

A paz daqui é como eterno bem
para quem vive com a liberdade
de já não precisar de nada além
do verde vale da minha cidade...

Afonso Estebanez
(Dedicado à eminente professora cantagalense
Anabelle Loivos Considera C. Sangenis/UFRJ)

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