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28 de jul de 2008

Boa noite meu amor...



Boa noite, meu amor!
O mar acalma na brisa
essa é a hora de voltar...
A brisa acalmar o vento
os sonhos o pensamento
que não cessa de gritar
nessa noite numerosa
entre as ondas sinuosas
dos caminhos do luar...

Boa noite, meu amor!
Sem os muros dos rochedos
sem nenhum setembro negros
em mistérios nem segredos
sem os medos de voltar...

Boa noite, meu amor!
É destino o amanhecer
para a noite descansar...
Bom sonhar enquanto é tempo
bom de morrer ao relento
bom de renascer no mar...

[A. Estebanez ]

Buraco Negro



Ser meu amor e amante
ser volúpias de meu ser
ser o lado mais distante
de meus lados de viver.

Ser o morto ainda vivo
e estar vivo sem querer
o querer morrer cativos
em ser preciso morrer.

Ser operários sem lida
os contrários do galope
no vão do meio da vida
ou na beirada da morte.

Buraco negro do amor
sem nenhum alvorecer
como a flor a flor a flor
de Hiroshima renascer.

Ser esse fundo do poço
um chão seco de jardim
até que o meu alvoroço
não suporte nem a mim...


A. Estebanez

(Falado em 21/03/2008 no Calçadão de Ipanema em encontro de escritores do grupo Alma de Poeta do Rio de Janeiro)

27 de jul de 2008

Motivo



Preciso morrer hoje
como o perfume extinto
na tragédia da flor.

Morrer profundamente
como o sol que agonizano
leito do crepúsculo.

Quero apenas o tempo
de rever a saudade
na lágrima do orvalho.

Depois voar na brisa
gangorrear no vento
entre sons de clarins...


[A. Estebanez]

Meestria à Leonora de Proença














(Cantiga de Amigo)

Um dia brisa no campo
um dia a asa no vento
enviei meu pensamento
ferido de desencanto...

Leonora, Leonora,
ess’amor assi non fora
qu’outro bem me fora tanto?

Uma vez brisa soprada
uma vez asa partida
minha ilusão tam velida
voará desencontrada...

Leonora, min tormenta!
Non torn’ess’amor qu’eu senta
em coita tam desamada...

Leonora, eu cuidaria
desse amor com tal desvelo
qu’outro bem pra merecê-lo
de ser mor que o meu teria.

Mays se vós visseis, Senhor,
com tal coita mia dor,
dess’amor vos morreria...
Quanto mais a dor doesse
mais esse amor veveria...


A. Estebanez
(Do livro Antologia Poética do Grupo Salina de Niterói – 1969)

Luciranda















Entre o olhar e a palavra
algo fala e reluz
num caminho sem curvas
de algum raio de luz...

Como risos da areia
derramada no vento
som de chuva na água
num cantar sem lamento...

Vago instante da aragem
em que a relva soluça
à procura do lado
em que a flor se debruça...

Leve cheiro de orvalho
canto de ave no cio
flor e flauta em murmúrio
no remanso do rio...


[A. Estebanez ]

Ludmila











Por mais que pareça tão leve
lembrança de um breve momento
é mais do que um pássaro almado
num sonho sem paz nem tormento...

É como se dentro de mimas
sim como flauta no vento
uma voz que não sei bem onde
vivesse cantando tão perto
de uma dor que estava tão longe...

No peito já bronze fundido
antigo intocado na noite
perdida no rumo da aragem
como sons de cordas caladas
de alguma canção em viagem...

Na tênue plumagem da lua
seminua sobre a campina,
uma voz que não sei bem onde
talvez no rumor da neblina...

Uma dor que estava tão longe
na brisa que tange a cantiga...
Abriga minh’alma e acalanta
sem mágoa a esperança perdida!
E é tudo o que resta – uma sombra
de mim do outro lado da vida...



A. Estebanez
(Poema dedicado à minha filha do outro lado da vida)

Suave é a espera...




Deixa tua alma numa rosa
e um sonho no amanhecer
para ver minha esperança
que hoje espera te rever...

Tu não precisas do tempo
quando o amor acontecer.
O amor te chega na brisa
quando o sonho alvorecer.

Deixa o coração na porta
e um arco-íris no jardim...
A esperança se comporta
como flor dentro de mim.

Que suave é toda espera
para quem quer renascer
num sonho de primavera
que renasce sem morrer...

[A. Estebanez]
(Poema dedicado à minha filha Johanna Rodrigues Estebanez Stael)

26 de jul de 2008

Delicatesse



A gota de orvalho
soltou-se do galho:
a gota caída.

A gota de orvalho
caída nas águas:
a gota perdida.

A gota de orvalho
da tua presença
virou minha vida.

A. Estebanez

Da poesia


Poesia não é palavra
ou o ouro ou a lavra.
Poesia é de ninguém.
Não é o elo perdido,
e o seu único sentido
é aquele que não tem.

Poesia enquanto fala
é então que ela se calas
e não é verbo de ação.
O som é só o fonema
que resvala no poema
sua força da expressão.

Poesia não é o ponto
ou o furo do pesponto
não é forno nem é pão
Ou o ovo ou a galinha
ou a agulha ou a linha
ou o fogo ou o carvão.

Poesia é um absurdo
é o nada sendo tudo
o obscuro da sintaxe.
É o ser e é o não ser!
Impossível de nascer,
é daí que ela renasce...

[A. Estebanez ]

Canção sonolenta



Correm lentos noite e rio
nos atalhos entre o vento
aquecendo a mão do frio
nos retalhos do relento...

A brisa vem-me acalmar
de antigo ressentimento
e o vento me vem cantar
de tanto contentamento.

Na alameda à luz da lua
sob o céu além do tempo
nas poças d’água da rua
entre luzes me contemplo...

Futuro não tem passado
e o presente não tem fim.
Há em mim um outro lado
de um outro lado de mim...

Jaz-me a alma repousada
e uma flor calada em mim
como saudade encostada
o canteiro de um jardim...

[A. Estebanez]

Cançoneta


Eu diria – são flores as pedras
em que pisam teus pés viajores...
Tuas dores – diria – são quedas.
Eu diria – nas pedras de flores.

Sobretudo no vento que passa
como brisa tu passas no tempo.
Porque voas tão cheia de graça.
Eu diria – nos braços do vento...

E diria que a estrada é tão curta,
quem sabe não seja uma estrada.
Eu diria – uma entrada noturnado
caminho de alguma alvorada...

Peregrina, são flores as pedras
na cantiga de amáveis cantores.
As veredas – diria – são breves.
E diria que as pedras são flores...


[A. Estebanez]

Em tempo de Lótus, Lírios e Acácias...


Jamais perder o momento
de encontrar na boca
um sorriso...

Jamais perder a esperança
de encontrar na curva
um caminho...

Jamais perder a certeza
de encontrar no muro
uma porta...

O lótus pode ser
o momento de glória
da lama...

O lírio pode ser
o encontro da paz
na esperança...

A acácia pode ser
a certeza da vida
na morte...

Afonso Estebanez

Por um grande amor



Nascer é como ouvir passar um rio
na concha do recôncavo da aurora
que acorda no crepúsculo sombrio
do tédio de passar sem ir embora!

Viver é como estar em pleno estio
de quando a primavera comemora
nos arco-íris do sonho o desfastio
de reflorir do estio de quem chora!

Sonhar é como reinventar o acaso
da causa dos amores sem destino
nas histórias de reinvenção da flor.

Morrer!... É como recontar o caso
de reinventar o sonho clandestino
e ter vivido por um grande amor!

[A. Estebanez]

Amor por evidência


Haverei de encontrar por onde for
teus beijos numa ânfora de vinho!
E me haverás o colo enquanto flor
rendida num canteiro de carinho...

Amarei com ternura o teu jeitinho
de matar-se de amor só por amor
de meu corpo deitado no caminho
de teu corpo num pânico sem dor.

Serei o sonho desse amor remido
no destino de um pássaro banido
num cântico de gozo sem motivo.

E é tudo que suplica o meu amor:
que me tenhas no colo como flor
e desse amor seja teu ser cativo!


[A. Estebanez]

Segue o teu caminho...




Segue o teu nome no papel dobrado
nesta carta com linhas de esperança,
segue também um vulto do passado
do presente guardado na lembrança.

Segue refém da minha insegurança
um pleito de ternura aqui invocado
na crença de que a jura não alcança
o amor que um dia já me foi jurado.

Cada meu dia é escravo de meu diaca
da memória é sonho da memória,
cada lembrança é como despedida...

Ah, triste o amor cuja manhã tardia
traz no crepúsculo da vaga história
o amor de uma alvorada anoitecida...



A. Estebanez
(Soneto dedicado ao notável poetaThéo Drummond – membro ilustreda Academia Brasileira de Poesia)

Canção para a Monica




O poeta é quem se alegra
de não estar indo embora
com a alma sobre a pedra
sentada à beira da aurora.

Um poeta é feito de brisa
com pedaços de alvorada
que da aurora ele precisa
sem que precise de nada.

O poeta é a parte da vida
reencontrada na quimera
de uma flor despercebida
de uma antiga primavera.

Ai da perda mais perdida!
Ai, alma de amor repleta!
Ai, razão incompreendida
em minha alma de poeta...

Um poeta é uma metade
do amor que sonha viver
como faz minha saudade
com saudades de te ver...

[A. Estebanez]

(Dedicado com carinho à notável poetisa Monica Yvonne Rosemberg – membro daAcademia Brasileira de Poesia – 7.24.08)

20 de jul de 2008

EKLIPSIS



No princípio era a luz
dos astros itinerantes...
E da luz se fez o amor
como fazem os amantes...

Dos arcanos da memória
meus instintos delirantes
gravitam à luz da aurora
como fazem os amantes...

Amores chegam refeitos
com a brisa dos mirantes
derramados sobre o leito
como fazem os amantes...

E sobre lençóis vermelhos
com desenhos excitantes
o amor se põe de joelhos
como fazem os amantes...

A minh’alma apaixonada
no infinito desse instante
refaz amor de emboscada
como fazem os amantes...

Que assim seja meu amor
feito eclipses penetrantes
como a luz fecunda a flor
como fazem os amantes...

A.Estebanez

Entre um sonho e outro


Devo empreender uma viagem...
Mas não quero Londres e muito menos a Paris revisitada.
Lá as gentes são todas iguais a mim. Sangue bom à flor da pele
igual à minha ruim. Conheço a guarda real o big-bem o jardim.
Como se não houvesse periferia...
Como se houvesse algum jardim...

Devo empreender uma viagem...
Para um pouco mais além da minha praça tropical.
E, quem sabe, alcançar os meus sem-sonhos não vividos
que sempre estiveram na feira dos sábados de minhas mãos.
Como se houvesse sonhos... Como se houvesse mãos...

Devo empreender uma viagem...
E comprar alguma gleba nos alvos prados das nuvens
construir com minhas mãos os meus sem-sonhos já vividos
entre pedras de granizo com penugens numa casa de algodão.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...

Devo empreender uma viagem...
Para conversar com meus anjos já bem mais envelhecidos
sobre como é ficar ou então nunca ficar a um passo do paraíso.
Esse é um dos meus sem-sonhos refeitos com minhas mãos.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...


[A. Estebanez]

17 de jul de 2008

Enigma de voltar


Talvez eu volte corrimão de rios tortos
por onde vem beber a lua amedrontada...
Espírito cantor dos pássaros já mortos
sob os destroços de uma flor inacabada...

Caravelas de nuvens como pressupostos
do transporte por céu da luz embriagada...
Quiçá refaça-me de restos recompostos
com os pedaços de minha alma fatigada...

Talvez eu venha como o ser e a solução
como ave presa na lembrança da canção
ou como flores despojadas num jardim...

Talvez eu volte com um coração enfermo
e tente a morte retirar-me de mim mesmo
mas só eu mesmo posso me tirar de mim...


A. Estebanez

ENAMORADOS

Enamorados como a sombra e o cipreste
os dois lados da alma aos corpos reunida
vestida como um pássaro que se reveste
como a rosa de luz e tanto amor de vida...

Enamorados de alma isenta do cansaço
por onde caminhar não seja o lado triste
da ave marinha que pernoita no regaço
dos crepúsculos desenhados sem limite...

Enamorados onde o além é o horizonte
onde ao longe cintila a noite já alunada
e onde entre as maçãs da face rutilante
reveste-se de luz o olhar da enamorada...

E de tal modo que em sua carne ardente
envolve-se a paixão na carne hirta e fria...
E como que entrementes há suavemente
que retardar a noite até que venha o dia...

A. Estebanez
[Poema dedicado a Lourdinha Poems]

DOM QUIXOTE



Tantas paixões meu cavaleiro errante
triste figura andante em mim venceu...
De eterno amor por sua doce amante
bem mais que eternamente padeceu...

Deu expressão ao asno e ao rocinante.
Aos guerreiros do amor deu o apogeu.
Aos moinhos de vento o vago instante
da reinvenção do sonho que morreu...

Revi meu Dom Quixote de La Mancha...
O escudeiro... O cavalo e a augusta lança
contra os dragões do inferno sob o céu...

Quando uma simples chuva de verão
derreteu – qual num passe de ilusão –
a minha Dulcinéia de papel...

A. Estebanez

DO PARNASO PARA MEU PAI
















Ah, saudade daquele tempo se envelheço
como a cadeira de balanço ali esquecida
por meu pai com o qual ainda me pareço
nesse cismar de amor e sonho pela vida...

Quando menino ouvia com ditoso apreço
histórias que vovó contava envaidecida...
Hoje sei que mudei! Sentindo reconheço
que saudade parece ausência sem partida...

Cadeira de balanço! Ô, exílio de saudade!
Tu guardas no madeiro minha tenra idade
que os da família o rústico perfil se esvai...

Eu lembro o meu avô e a prole reunida
e pressinto embalar-me na cadeira antiga
o vulto complacente de meu velho pai...

A. Estebanez

Eternidade compartilhada


Quando eu for desta vida à eternidade
que o seja devagar sem nenhum medo
de estar indo e deixando uma saudade
de amores meus vividos em segredo...

Nessa viagem quero pôr meus braços
e os mais secretos ímpetos das mãos
em teu corpo tomando meus regaços
no abraço de dois seres quase irmãos.

Quero ir fecunda à minha vida nova
onde eu te encontre repentinamente,
onde os dias do amor que me renovas
ejam meus dias férteis de semente.

Nosso êxtase será como o dos anjos
nosso encontro será num grito mudo
a proteção do amor é a dos arcanjos
e que o amor de Deus nos seja tudo!


Poema a quatro mãos de:
Afonso Estebanez & Sandra Almeida

Arraial do Cabo


O tempo que é minha hora não é hora de ninguém.
Passo e fico como traços de meus passos a caminho
de Belém...

O vento cavalga nuvens desancoradas do mar
e o mirante contando barcos junto ao cabo do arraial
à beira-mar... O vento vergando o dorso das casuarinas
entre casas e colinas navegando no luar...

E na brisa o que se vai na brisa vem no cantar
do mar-e-vento que é seu fado regressar.
De Belém ressoam sinos na concha da madrugada...
O arraial me diz do amor sem que precise dizer nada,
que trago n’alma profunda a calma desesperada...

Deixem-me aqui sepultado num coral de águas profundas
sob a areia movediça entre as algas derramadas...
E meus sonhos entre as dunas onde jaza bem mais funda
a minh’alma apaixonada...

De tanto amor já viveram que de estrelas se fizeram tantas
horas de esperanças...Ai, quem me dera pudesse morrer
de mar aberto de amor nesse arraial de lembranças...

A. Estebanez
(Poema dedicado ao poeta Luiz Fernando Prôa)

11 de jul de 2008

DESTINO


Eu quero seguir
teus passos
palmilhados
entre espinhos
colhendo as rosas
que deixas
como pedras
em meus caminhos...

Afonso Estebanez

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