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22 de nov. de 2010

CANÇÃO RITMADA


Não basta ser uma pétala,
é preciso ser a flor: a face
do lírio é a parte desperta
da face da aurora coberta
de partes da festa da flor.

Não basta o flerte da rosa
sem a volúpia da flor: ser
uma rosa é ser uma fome
desse amor que consome
e vive em nome do amor.

Não basta uma ideologia,
é urgente que haja amor:
o amor doido fado magia
profundo como uma rosa
e simples como uma flor.

Afonso Estebanez

10 de nov. de 2010

'IR EMBORA'


Esse ir embora só me faz sentido
quando sequer me sei aonde vou
com meu corpo baldio já perdido
da sombra de si mesmo
como um vulto apagado
do outro lado esquecido
pelo lado em que estou.

Partir é não saber se vou chegar.
Ir apenas é tudo o que interessa.
Chegar é não partir e não voltar.
Como um rio que escoa
e seu cantar não cessa,
entre as dobras do mar
com a calma da pressa.

Pode ser minha pressa de agora
minha a pressa de nunca chegar
esse jeito de amor indo embora
bem na hora do amor regressar.

Afonso Estebanez

BAILIA – 3


Na angústia da insônia
eu me conto minha vida
e durmo de tédio...

A noite acomoda-se
à beira de um riacho
e as águas cantam para ela
uma canção remota...

É assim
que ainda me conto
a história
de minha vida
escrita nas estrelas...
A lua é o ponto
final...

Afonso Estebanez

9 de set. de 2010

'Amar ou nada mais'


Amar ou nada mais, o quanto importa
a falta que algum sonho ainda me faz.
Pensar-te nesta ausência me conforta
malgrado essa saudade que dói mais.

Louvado seja o amor que me suporta
como um barco sem âncora num cais
que vive de ir embora e sempre volta
para sonhar meus sonhos tão banais.

Amar ou nada mais, é o quanto basta
para que em ti a minha vida em festa
encontre o amor com tanta claridade,

que a intensidade dessa luz tão vasta
vá revestir de aurora o que nos resta
depois que anoitecer toda a saudade.

Afonso Estebanez

(Dedicado com carinho à amiga
Iracema Patrício)

ENAMORADOS...

(Willem Haenraets)


Enamorados como a sombra e o cipreste
os dois lados da alma aos corpos reunida
vestida como um pássaro que se reveste
como a rosa de luz e tanto amor de vida...

Enamorados de alma isenta do cansaço
por onde caminhar não seja o lado triste
da ave marinha que pernoita no regaço
dos crepúsculos desenhados sem limite...

Enamorados onde o além é o horizonte
onde ao longe cintila a noite já alunada
e onde entre as maçãs da face rutilante
reveste-se de luz o olhar da enamorada...

E de tal modo que em sua carne ardente
envolve-se a paixão na carne hirta e fria...

E como que entrementes há suavemente
que retardar a noite até que venha o dia...

A. Estebanez

30 de ago. de 2010

DAS PROMESSAS DO SERMÃO


Bem-aventurados os arrogantes
de espírito, porque a eles foi estendido
o direito de se curvarem aos humildes
para os efeitos do indulto do perdão.

Bem-aventurados os que escarnecem
da desventura do irmão, pois entre eles
foi difundida a esperança de consolo
em nome da graça do perdão.

Bem-aventurados os que não têm fome
nem sede de justiça, porque já são fartos
e só dependem do advento do perdão.

Bem-aventurados os impiedosos, infiéis,
tiranos, incrédulos, impuros de coração,
porque poderão alcançar a misericórdia
prometida como primícias do perdão.

Mas se não houver Amor no coração,
haverá o efeito da perda da esperança
a despeito das promessas de perdão.

Julis Calderón & Afonso Estebanez

28 de ago. de 2010

ERVAS SEM JARDIM


Às vezes penso em atear fogo
nas urtigas para que não brotem mais
entre as indefesas anêmonas da vida...
Mas quantas sementes não queimariam
na relva da esperança?... Quantas
à minha imagem e semelhança...

Já tive a infeliz oportunidade
de sepultar muitos amores...
Mas o amor não é instinto que se mate!
Então eu sepulto o meu próprio amor
num canteiro de ervas secas e baldias
das que morrem para sempre
e renascem todos o dias...

Como vivem as heras frágeis
entre as pedras que há em mim...
Pelo menos elas têm o sol da manhã
com o qual confortam suas vidas
sem jardim...

Afonso Estebanez

24 de ago. de 2010

POEMA MELANCÓLICO


Não fora a vida imensurável desafio,
viver só por viver não valeria a pena
eis é preciso ouvir e ver passar o rio
entoando com a solidão da lua cheia
uma canção amena.

É necessário reinventar cada jardim
e ver o reflorir que tem a primavera
um se redefinir como princípio e fim
e o que, de súbito, no cio da manhã
se vê pela janela.

Gasto dias sob os arco-íris da garoa
liberado de mágoas em decantação
eis é preciso retornar a quem entoa
esta canção de paz e de melancolia
no vasto coração.

Quantas vezes perdi o último navio,
e vi o cais vazio, o que vivi desfeito.
Mas a despeito desse cântico tardio
meu coração por desafio ainda vive
cantando no meu peito.

Afonso Estebanez

COMO ENTRE GIRASSÓIS


Devo morrer de lágrima de encanto
não quando toda dor tenha cessado
mas enquanto for pena todo pranto
e o meu amor um canto inacabado.

A vida às vezes cruza o desencanto
com um sonho por vezes sepultado
mas deste luto é que se faz o canto
depois de tudo pronto e terminado.

Ninguém pode olvidar os pesadelos
razões dos fios brancos dos cabelos
ocultos entre as dobras dos lençóis.

Eis neles vão os sonhos docemente
morrendo como morre o sol poente
no horizonte do olhar dos girassóis.

Afonso Estebanez

17 de ago. de 2010

”PÁSSAROS NOTURNOS – 3”


... E há o pássaro noturno
contornando o mar escuro
sem ter ilha onde pousar...

Há uma noite percorrendo o céu
topografando a luz da via-láctea
em seu ocioso ofício de brilhar...

Precisa do refúgio de um corpo
como a treva da lâmpada acesa
como barcos entrando no porto
como o corpo no fundo do mar.

Precisa conhecer ilhas perdidas
como o sol necessita do poente
como a noite precisa anoitecer
aonde os riachos vão descansar.

Há um cadáver na praça
há os suicidas anônimos
e há muitos heterônimos
e mil demônios e o mar.

E há um pássaro noturno
que não tem onde pousar...

Afonso Estebanez

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