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26 de jul. de 2008

Canção para a Monica




O poeta é quem se alegra
de não estar indo embora
com a alma sobre a pedra
sentada à beira da aurora.

Um poeta é feito de brisa
com pedaços de alvorada
que da aurora ele precisa
sem que precise de nada.

O poeta é a parte da vida
reencontrada na quimera
de uma flor despercebida
de uma antiga primavera.

Ai da perda mais perdida!
Ai, alma de amor repleta!
Ai, razão incompreendida
em minha alma de poeta...

Um poeta é uma metade
do amor que sonha viver
como faz minha saudade
com saudades de te ver...

[A. Estebanez]

(Dedicado com carinho à notável poetisa Monica Yvonne Rosemberg – membro daAcademia Brasileira de Poesia – 7.24.08)

20 de jul. de 2008

EKLIPSIS



No princípio era a luz
dos astros itinerantes...
E da luz se fez o amor
como fazem os amantes...

Dos arcanos da memória
meus instintos delirantes
gravitam à luz da aurora
como fazem os amantes...

Amores chegam refeitos
com a brisa dos mirantes
derramados sobre o leito
como fazem os amantes...

E sobre lençóis vermelhos
com desenhos excitantes
o amor se põe de joelhos
como fazem os amantes...

A minh’alma apaixonada
no infinito desse instante
refaz amor de emboscada
como fazem os amantes...

Que assim seja meu amor
feito eclipses penetrantes
como a luz fecunda a flor
como fazem os amantes...

A.Estebanez

Entre um sonho e outro


Devo empreender uma viagem...
Mas não quero Londres e muito menos a Paris revisitada.
Lá as gentes são todas iguais a mim. Sangue bom à flor da pele
igual à minha ruim. Conheço a guarda real o big-bem o jardim.
Como se não houvesse periferia...
Como se houvesse algum jardim...

Devo empreender uma viagem...
Para um pouco mais além da minha praça tropical.
E, quem sabe, alcançar os meus sem-sonhos não vividos
que sempre estiveram na feira dos sábados de minhas mãos.
Como se houvesse sonhos... Como se houvesse mãos...

Devo empreender uma viagem...
E comprar alguma gleba nos alvos prados das nuvens
construir com minhas mãos os meus sem-sonhos já vividos
entre pedras de granizo com penugens numa casa de algodão.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...

Devo empreender uma viagem...
Para conversar com meus anjos já bem mais envelhecidos
sobre como é ficar ou então nunca ficar a um passo do paraíso.
Esse é um dos meus sem-sonhos refeitos com minhas mãos.
Como se houvesse sonhos...
Como se houvesse mãos...


[A. Estebanez]

17 de jul. de 2008

Enigma de voltar


Talvez eu volte corrimão de rios tortos
por onde vem beber a lua amedrontada...
Espírito cantor dos pássaros já mortos
sob os destroços de uma flor inacabada...

Caravelas de nuvens como pressupostos
do transporte por céu da luz embriagada...
Quiçá refaça-me de restos recompostos
com os pedaços de minha alma fatigada...

Talvez eu venha como o ser e a solução
como ave presa na lembrança da canção
ou como flores despojadas num jardim...

Talvez eu volte com um coração enfermo
e tente a morte retirar-me de mim mesmo
mas só eu mesmo posso me tirar de mim...


A. Estebanez

ENAMORADOS

Enamorados como a sombra e o cipreste
os dois lados da alma aos corpos reunida
vestida como um pássaro que se reveste
como a rosa de luz e tanto amor de vida...

Enamorados de alma isenta do cansaço
por onde caminhar não seja o lado triste
da ave marinha que pernoita no regaço
dos crepúsculos desenhados sem limite...

Enamorados onde o além é o horizonte
onde ao longe cintila a noite já alunada
e onde entre as maçãs da face rutilante
reveste-se de luz o olhar da enamorada...

E de tal modo que em sua carne ardente
envolve-se a paixão na carne hirta e fria...
E como que entrementes há suavemente
que retardar a noite até que venha o dia...

A. Estebanez
[Poema dedicado a Lourdinha Poems]

DOM QUIXOTE



Tantas paixões meu cavaleiro errante
triste figura andante em mim venceu...
De eterno amor por sua doce amante
bem mais que eternamente padeceu...

Deu expressão ao asno e ao rocinante.
Aos guerreiros do amor deu o apogeu.
Aos moinhos de vento o vago instante
da reinvenção do sonho que morreu...

Revi meu Dom Quixote de La Mancha...
O escudeiro... O cavalo e a augusta lança
contra os dragões do inferno sob o céu...

Quando uma simples chuva de verão
derreteu – qual num passe de ilusão –
a minha Dulcinéia de papel...

A. Estebanez

DO PARNASO PARA MEU PAI
















Ah, saudade daquele tempo se envelheço
como a cadeira de balanço ali esquecida
por meu pai com o qual ainda me pareço
nesse cismar de amor e sonho pela vida...

Quando menino ouvia com ditoso apreço
histórias que vovó contava envaidecida...
Hoje sei que mudei! Sentindo reconheço
que saudade parece ausência sem partida...

Cadeira de balanço! Ô, exílio de saudade!
Tu guardas no madeiro minha tenra idade
que os da família o rústico perfil se esvai...

Eu lembro o meu avô e a prole reunida
e pressinto embalar-me na cadeira antiga
o vulto complacente de meu velho pai...

A. Estebanez

Eternidade compartilhada


Quando eu for desta vida à eternidade
que o seja devagar sem nenhum medo
de estar indo e deixando uma saudade
de amores meus vividos em segredo...

Nessa viagem quero pôr meus braços
e os mais secretos ímpetos das mãos
em teu corpo tomando meus regaços
no abraço de dois seres quase irmãos.

Quero ir fecunda à minha vida nova
onde eu te encontre repentinamente,
onde os dias do amor que me renovas
ejam meus dias férteis de semente.

Nosso êxtase será como o dos anjos
nosso encontro será num grito mudo
a proteção do amor é a dos arcanjos
e que o amor de Deus nos seja tudo!


Poema a quatro mãos de:
Afonso Estebanez & Sandra Almeida

Arraial do Cabo


O tempo que é minha hora não é hora de ninguém.
Passo e fico como traços de meus passos a caminho
de Belém...

O vento cavalga nuvens desancoradas do mar
e o mirante contando barcos junto ao cabo do arraial
à beira-mar... O vento vergando o dorso das casuarinas
entre casas e colinas navegando no luar...

E na brisa o que se vai na brisa vem no cantar
do mar-e-vento que é seu fado regressar.
De Belém ressoam sinos na concha da madrugada...
O arraial me diz do amor sem que precise dizer nada,
que trago n’alma profunda a calma desesperada...

Deixem-me aqui sepultado num coral de águas profundas
sob a areia movediça entre as algas derramadas...
E meus sonhos entre as dunas onde jaza bem mais funda
a minh’alma apaixonada...

De tanto amor já viveram que de estrelas se fizeram tantas
horas de esperanças...Ai, quem me dera pudesse morrer
de mar aberto de amor nesse arraial de lembranças...

A. Estebanez
(Poema dedicado ao poeta Luiz Fernando Prôa)

11 de jul. de 2008

DESTINO


Eu quero seguir
teus passos
palmilhados
entre espinhos
colhendo as rosas
que deixas
como pedras
em meus caminhos...

Afonso Estebanez

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