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9 de set. de 2010

'Amar ou nada mais'


Amar ou nada mais, o quanto importa
a falta que algum sonho ainda me faz.
Pensar-te nesta ausência me conforta
malgrado essa saudade que dói mais.

Louvado seja o amor que me suporta
como um barco sem âncora num cais
que vive de ir embora e sempre volta
para sonhar meus sonhos tão banais.

Amar ou nada mais, é o quanto basta
para que em ti a minha vida em festa
encontre o amor com tanta claridade,

que a intensidade dessa luz tão vasta
vá revestir de aurora o que nos resta
depois que anoitecer toda a saudade.

Afonso Estebanez

(Dedicado com carinho à amiga
Iracema Patrício)

ENAMORADOS...

(Willem Haenraets)


Enamorados como a sombra e o cipreste
os dois lados da alma aos corpos reunida
vestida como um pássaro que se reveste
como a rosa de luz e tanto amor de vida...

Enamorados de alma isenta do cansaço
por onde caminhar não seja o lado triste
da ave marinha que pernoita no regaço
dos crepúsculos desenhados sem limite...

Enamorados onde o além é o horizonte
onde ao longe cintila a noite já alunada
e onde entre as maçãs da face rutilante
reveste-se de luz o olhar da enamorada...

E de tal modo que em sua carne ardente
envolve-se a paixão na carne hirta e fria...

E como que entrementes há suavemente
que retardar a noite até que venha o dia...

A. Estebanez

30 de ago. de 2010

DAS PROMESSAS DO SERMÃO


Bem-aventurados os arrogantes
de espírito, porque a eles foi estendido
o direito de se curvarem aos humildes
para os efeitos do indulto do perdão.

Bem-aventurados os que escarnecem
da desventura do irmão, pois entre eles
foi difundida a esperança de consolo
em nome da graça do perdão.

Bem-aventurados os que não têm fome
nem sede de justiça, porque já são fartos
e só dependem do advento do perdão.

Bem-aventurados os impiedosos, infiéis,
tiranos, incrédulos, impuros de coração,
porque poderão alcançar a misericórdia
prometida como primícias do perdão.

Mas se não houver Amor no coração,
haverá o efeito da perda da esperança
a despeito das promessas de perdão.

Julis Calderón & Afonso Estebanez

28 de ago. de 2010

ERVAS SEM JARDIM


Às vezes penso em atear fogo
nas urtigas para que não brotem mais
entre as indefesas anêmonas da vida...
Mas quantas sementes não queimariam
na relva da esperança?... Quantas
à minha imagem e semelhança...

Já tive a infeliz oportunidade
de sepultar muitos amores...
Mas o amor não é instinto que se mate!
Então eu sepulto o meu próprio amor
num canteiro de ervas secas e baldias
das que morrem para sempre
e renascem todos o dias...

Como vivem as heras frágeis
entre as pedras que há em mim...
Pelo menos elas têm o sol da manhã
com o qual confortam suas vidas
sem jardim...

Afonso Estebanez

24 de ago. de 2010

POEMA MELANCÓLICO


Não fora a vida imensurável desafio,
viver só por viver não valeria a pena
eis é preciso ouvir e ver passar o rio
entoando com a solidão da lua cheia
uma canção amena.

É necessário reinventar cada jardim
e ver o reflorir que tem a primavera
um se redefinir como princípio e fim
e o que, de súbito, no cio da manhã
se vê pela janela.

Gasto dias sob os arco-íris da garoa
liberado de mágoas em decantação
eis é preciso retornar a quem entoa
esta canção de paz e de melancolia
no vasto coração.

Quantas vezes perdi o último navio,
e vi o cais vazio, o que vivi desfeito.
Mas a despeito desse cântico tardio
meu coração por desafio ainda vive
cantando no meu peito.

Afonso Estebanez

COMO ENTRE GIRASSÓIS


Devo morrer de lágrima de encanto
não quando toda dor tenha cessado
mas enquanto for pena todo pranto
e o meu amor um canto inacabado.

A vida às vezes cruza o desencanto
com um sonho por vezes sepultado
mas deste luto é que se faz o canto
depois de tudo pronto e terminado.

Ninguém pode olvidar os pesadelos
razões dos fios brancos dos cabelos
ocultos entre as dobras dos lençóis.

Eis neles vão os sonhos docemente
morrendo como morre o sol poente
no horizonte do olhar dos girassóis.

Afonso Estebanez

17 de ago. de 2010

”PÁSSAROS NOTURNOS – 3”


... E há o pássaro noturno
contornando o mar escuro
sem ter ilha onde pousar...

Há uma noite percorrendo o céu
topografando a luz da via-láctea
em seu ocioso ofício de brilhar...

Precisa do refúgio de um corpo
como a treva da lâmpada acesa
como barcos entrando no porto
como o corpo no fundo do mar.

Precisa conhecer ilhas perdidas
como o sol necessita do poente
como a noite precisa anoitecer
aonde os riachos vão descansar.

Há um cadáver na praça
há os suicidas anônimos
e há muitos heterônimos
e mil demônios e o mar.

E há um pássaro noturno
que não tem onde pousar...

Afonso Estebanez

31 de jul. de 2010

VERSOS LEVIANOS


Sou o teu rio de mágoas
De lua cheia me inundo
E morro nas águas rasas
De um oceano profundo.

Colho flores numerosas
Da pedra da minha vida
E sei das tolas mimosas
De alguma rosa suicida.

No escombro da poesia
Há ninhos e andorinhas
E o chão da erva esguia
Por onde nua caminhas.

No jardim de sepulturas
Há as juras que nem fiz
Dos afetos e as ternuras
Que me deixaram feliz.

Afonso Estebanez

27 de jul. de 2010

QUINTA ROSA DO ORIENTE


Uma rosa!... Ah, ninguém sabe fazer...
Até Deus na invenção da quintessência
implantou-me o saber sem consciência
de que as flores dependem de nascer...

Nem mesmo a luz do mar no alvorecer
prediz como uma rosa é esta iminência
de um renascer em mim sem paciência
como se em mim não fosse mais viver.

Não! O mar pode ter os seus caminhos
mas entre rosas cruzam-se de espinhos
pois que nem só de flor me leva a vida.

Uma rosa!... Ah, ninguém sabe fazer...
Nem mesmo Deus pela razão de eu ser
uma espécie de adeus sem despedida...

Afonso Estebanez

16 de jul. de 2010

Canção a você


Canto a saudade iminente
que te leva pra mundos distantes
deixando perfume no infinito
adornado de muitas cores

Trilho os dias, falo ao vento,
antecipo a chegada reversa do tempo
descansando meu cansaço no dorso da espera,
ou no avesso que o mundo desfaz

E no último ocaso,
mesmo que a visão se nuble,
percebo tua chegada ao som lapidado
do acalanto de um olhar sem segredo,
falando o que há dentro de mim


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 27/06/10
Código do Texto: T2343776

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