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23 de fev. de 2011

DOM QUIXOTE

(Tela de Cândido Portinari)


Tantas paixões meu cavaleiro errante
triste figura andante em mim venceu...
De eterno amor por sua doce amante
bem mais que eternamente padeceu...

Deu expressão ao asno e ao rocinante.
Aos guerreiros do amor deu o apogeu.
Aos moinhos de vento o vago instante
da reinvenção do sonho que morreu...

Revi meu Dom Quixote de La Mancha...
O escudeiro... O cavalo e a augusta lança
contra os dragões do inferno sob o céu...

Quando uma simples chuva de verão
derreteu – qual num passe de ilusão –
a minha Dulcinéia de papel...

Afonso Estebanez

20 de dez. de 2010

SONETO NATALINO


Se se tem que ser hoje aquilo tudo
que em vida não se foi, podendo ser,
seja esse sonho mudo ainda mais mudo
enquanto for eterno até morrer.

Se se tem que pedir, que sobretudo
seja a doce ilusão de merecer
ao menos a esperança como escudo
de quem sonha algum dia receber.

Peça-se amor que mais amor reclame,
prazer de desejar só dor menor
em sofrer o prazer que se viveu.

Senão com grande amor, não se desame
ou se ame com amor ainda maior
essa dor que tão grande se doeu!

Afonso Estebanez

22 de nov. de 2010

CANÇÃO RITMADA


Não basta ser uma pétala,
é preciso ser a flor: a face
do lírio é a parte desperta
da face da aurora coberta
de partes da festa da flor.

Não basta o flerte da rosa
sem a volúpia da flor: ser
uma rosa é ser uma fome
desse amor que consome
e vive em nome do amor.

Não basta uma ideologia,
é urgente que haja amor:
o amor doido fado magia
profundo como uma rosa
e simples como uma flor.

Afonso Estebanez

10 de nov. de 2010

'IR EMBORA'


Esse ir embora só me faz sentido
quando sequer me sei aonde vou
com meu corpo baldio já perdido
da sombra de si mesmo
como um vulto apagado
do outro lado esquecido
pelo lado em que estou.

Partir é não saber se vou chegar.
Ir apenas é tudo o que interessa.
Chegar é não partir e não voltar.
Como um rio que escoa
e seu cantar não cessa,
entre as dobras do mar
com a calma da pressa.

Pode ser minha pressa de agora
minha a pressa de nunca chegar
esse jeito de amor indo embora
bem na hora do amor regressar.

Afonso Estebanez

BAILIA – 3


Na angústia da insônia
eu me conto minha vida
e durmo de tédio...

A noite acomoda-se
à beira de um riacho
e as águas cantam para ela
uma canção remota...

É assim
que ainda me conto
a história
de minha vida
escrita nas estrelas...
A lua é o ponto
final...

Afonso Estebanez

9 de set. de 2010

'Amar ou nada mais'


Amar ou nada mais, o quanto importa
a falta que algum sonho ainda me faz.
Pensar-te nesta ausência me conforta
malgrado essa saudade que dói mais.

Louvado seja o amor que me suporta
como um barco sem âncora num cais
que vive de ir embora e sempre volta
para sonhar meus sonhos tão banais.

Amar ou nada mais, é o quanto basta
para que em ti a minha vida em festa
encontre o amor com tanta claridade,

que a intensidade dessa luz tão vasta
vá revestir de aurora o que nos resta
depois que anoitecer toda a saudade.

Afonso Estebanez

(Dedicado com carinho à amiga
Iracema Patrício)

ENAMORADOS...

(Willem Haenraets)


Enamorados como a sombra e o cipreste
os dois lados da alma aos corpos reunida
vestida como um pássaro que se reveste
como a rosa de luz e tanto amor de vida...

Enamorados de alma isenta do cansaço
por onde caminhar não seja o lado triste
da ave marinha que pernoita no regaço
dos crepúsculos desenhados sem limite...

Enamorados onde o além é o horizonte
onde ao longe cintila a noite já alunada
e onde entre as maçãs da face rutilante
reveste-se de luz o olhar da enamorada...

E de tal modo que em sua carne ardente
envolve-se a paixão na carne hirta e fria...

E como que entrementes há suavemente
que retardar a noite até que venha o dia...

A. Estebanez

30 de ago. de 2010

DAS PROMESSAS DO SERMÃO


Bem-aventurados os arrogantes
de espírito, porque a eles foi estendido
o direito de se curvarem aos humildes
para os efeitos do indulto do perdão.

Bem-aventurados os que escarnecem
da desventura do irmão, pois entre eles
foi difundida a esperança de consolo
em nome da graça do perdão.

Bem-aventurados os que não têm fome
nem sede de justiça, porque já são fartos
e só dependem do advento do perdão.

Bem-aventurados os impiedosos, infiéis,
tiranos, incrédulos, impuros de coração,
porque poderão alcançar a misericórdia
prometida como primícias do perdão.

Mas se não houver Amor no coração,
haverá o efeito da perda da esperança
a despeito das promessas de perdão.

Julis Calderón & Afonso Estebanez

28 de ago. de 2010

ERVAS SEM JARDIM


Às vezes penso em atear fogo
nas urtigas para que não brotem mais
entre as indefesas anêmonas da vida...
Mas quantas sementes não queimariam
na relva da esperança?... Quantas
à minha imagem e semelhança...

Já tive a infeliz oportunidade
de sepultar muitos amores...
Mas o amor não é instinto que se mate!
Então eu sepulto o meu próprio amor
num canteiro de ervas secas e baldias
das que morrem para sempre
e renascem todos o dias...

Como vivem as heras frágeis
entre as pedras que há em mim...
Pelo menos elas têm o sol da manhã
com o qual confortam suas vidas
sem jardim...

Afonso Estebanez

24 de ago. de 2010

POEMA MELANCÓLICO


Não fora a vida imensurável desafio,
viver só por viver não valeria a pena
eis é preciso ouvir e ver passar o rio
entoando com a solidão da lua cheia
uma canção amena.

É necessário reinventar cada jardim
e ver o reflorir que tem a primavera
um se redefinir como princípio e fim
e o que, de súbito, no cio da manhã
se vê pela janela.

Gasto dias sob os arco-íris da garoa
liberado de mágoas em decantação
eis é preciso retornar a quem entoa
esta canção de paz e de melancolia
no vasto coração.

Quantas vezes perdi o último navio,
e vi o cais vazio, o que vivi desfeito.
Mas a despeito desse cântico tardio
meu coração por desafio ainda vive
cantando no meu peito.

Afonso Estebanez

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