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24 de ago. de 2010

COMO ENTRE GIRASSÓIS


Devo morrer de lágrima de encanto
não quando toda dor tenha cessado
mas enquanto for pena todo pranto
e o meu amor um canto inacabado.

A vida às vezes cruza o desencanto
com um sonho por vezes sepultado
mas deste luto é que se faz o canto
depois de tudo pronto e terminado.

Ninguém pode olvidar os pesadelos
razões dos fios brancos dos cabelos
ocultos entre as dobras dos lençóis.

Eis neles vão os sonhos docemente
morrendo como morre o sol poente
no horizonte do olhar dos girassóis.

Afonso Estebanez

17 de ago. de 2010

”PÁSSAROS NOTURNOS – 3”


... E há o pássaro noturno
contornando o mar escuro
sem ter ilha onde pousar...

Há uma noite percorrendo o céu
topografando a luz da via-láctea
em seu ocioso ofício de brilhar...

Precisa do refúgio de um corpo
como a treva da lâmpada acesa
como barcos entrando no porto
como o corpo no fundo do mar.

Precisa conhecer ilhas perdidas
como o sol necessita do poente
como a noite precisa anoitecer
aonde os riachos vão descansar.

Há um cadáver na praça
há os suicidas anônimos
e há muitos heterônimos
e mil demônios e o mar.

E há um pássaro noturno
que não tem onde pousar...

Afonso Estebanez

31 de jul. de 2010

VERSOS LEVIANOS


Sou o teu rio de mágoas
De lua cheia me inundo
E morro nas águas rasas
De um oceano profundo.

Colho flores numerosas
Da pedra da minha vida
E sei das tolas mimosas
De alguma rosa suicida.

No escombro da poesia
Há ninhos e andorinhas
E o chão da erva esguia
Por onde nua caminhas.

No jardim de sepulturas
Há as juras que nem fiz
Dos afetos e as ternuras
Que me deixaram feliz.

Afonso Estebanez

27 de jul. de 2010

QUINTA ROSA DO ORIENTE


Uma rosa!... Ah, ninguém sabe fazer...
Até Deus na invenção da quintessência
implantou-me o saber sem consciência
de que as flores dependem de nascer...

Nem mesmo a luz do mar no alvorecer
prediz como uma rosa é esta iminência
de um renascer em mim sem paciência
como se em mim não fosse mais viver.

Não! O mar pode ter os seus caminhos
mas entre rosas cruzam-se de espinhos
pois que nem só de flor me leva a vida.

Uma rosa!... Ah, ninguém sabe fazer...
Nem mesmo Deus pela razão de eu ser
uma espécie de adeus sem despedida...

Afonso Estebanez

16 de jul. de 2010

Canção a você


Canto a saudade iminente
que te leva pra mundos distantes
deixando perfume no infinito
adornado de muitas cores

Trilho os dias, falo ao vento,
antecipo a chegada reversa do tempo
descansando meu cansaço no dorso da espera,
ou no avesso que o mundo desfaz

E no último ocaso,
mesmo que a visão se nuble,
percebo tua chegada ao som lapidado
do acalanto de um olhar sem segredo,
falando o que há dentro de mim


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 27/06/10
Código do Texto: T2343776

SONETO À SOMBRA DE NIETZSCHE


Hoje não quero nada de ninguém!
Nem compaixão, nem flores, nada enfim...
Tudo se esquece ou é ilusão. Porém,
eu sei que Deus vai-se lembrar de mim.

Passa o amor e fica esse desdém
nas sombras fugidias do meu fim...
Ah, pássaros que emigram para além
do amor que é gêmeo, mas não é afim...

Não quero nada. Nada! Nem lembrança
nem presente ou promessa ou esperança
nem vago instante que pareça festa...

Quero apenas que Deus me dê a graça
de brindar em silêncio numa taça
a glória de viver do que me resta!

Afonso Estebanez

8 de jul. de 2010

LÁGRIMA


Lágrima é um brilhante lapidado
pela luz da manhã ao despontar
uma gota de orvalho perfumado
no frasco de cristal do teu olhar.

É nascente de um rio represado
que te chora na face sem penar
o epílogo de um livro já fechado
com um ponto final para chorar.

E vejo com o teu olhar de Shiva
que doer é a forma compassiva
de uma lágrima gotejar perdão.

Repousa-me na dor de tua cruz
e me cubra com lágrimas de luz
no calvário de paz do coração...

Afonso Estebanez
(Para Anna Ortiz com o meu carinho)
28/04/2010

15 de jun. de 2010

PÁGINA ABERTA

Amanhã eu vou embora
mas sabes que vou ficar
como parte da memória
que não consigo apagar.

É a magia é como o viço
do vício da brisa e o mar
é a cantiga de um feitiço
que não deixo de cantar.

Amanhã tu vais embora
mas eu sei que vais ficar
como página da história
que jamais pude fechar.

Afonso Estebanez

1 de jun. de 2010

QUARTA ROSA DO ORIENTE


Tenho saudade da saudade dela
murmurando na brisa do jardim
que revejo do encanto da janela
aberta pelo céu dentro de mim.

A minha rosa é como a cidadela
da memória na torre de marfim
desse desterro de viver sem ela
num pálido crepúsculo sem fim.

Ela me traz de volta a sensação
de algum tempo futuro já vivido
no passado que não aconteceu.

Assim pressinto que no coração
essa doce ilusão me faz sentido
como sonho que se reconheceu.

Afonso Estebanez

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