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27 de jul. de 2010

QUINTA ROSA DO ORIENTE


Uma rosa!... Ah, ninguém sabe fazer...
Até Deus na invenção da quintessência
implantou-me o saber sem consciência
de que as flores dependem de nascer...

Nem mesmo a luz do mar no alvorecer
prediz como uma rosa é esta iminência
de um renascer em mim sem paciência
como se em mim não fosse mais viver.

Não! O mar pode ter os seus caminhos
mas entre rosas cruzam-se de espinhos
pois que nem só de flor me leva a vida.

Uma rosa!... Ah, ninguém sabe fazer...
Nem mesmo Deus pela razão de eu ser
uma espécie de adeus sem despedida...

Afonso Estebanez

16 de jul. de 2010

Canção a você


Canto a saudade iminente
que te leva pra mundos distantes
deixando perfume no infinito
adornado de muitas cores

Trilho os dias, falo ao vento,
antecipo a chegada reversa do tempo
descansando meu cansaço no dorso da espera,
ou no avesso que o mundo desfaz

E no último ocaso,
mesmo que a visão se nuble,
percebo tua chegada ao som lapidado
do acalanto de um olhar sem segredo,
falando o que há dentro de mim


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 27/06/10
Código do Texto: T2343776

SONETO À SOMBRA DE NIETZSCHE


Hoje não quero nada de ninguém!
Nem compaixão, nem flores, nada enfim...
Tudo se esquece ou é ilusão. Porém,
eu sei que Deus vai-se lembrar de mim.

Passa o amor e fica esse desdém
nas sombras fugidias do meu fim...
Ah, pássaros que emigram para além
do amor que é gêmeo, mas não é afim...

Não quero nada. Nada! Nem lembrança
nem presente ou promessa ou esperança
nem vago instante que pareça festa...

Quero apenas que Deus me dê a graça
de brindar em silêncio numa taça
a glória de viver do que me resta!

Afonso Estebanez

8 de jul. de 2010

LÁGRIMA


Lágrima é um brilhante lapidado
pela luz da manhã ao despontar
uma gota de orvalho perfumado
no frasco de cristal do teu olhar.

É nascente de um rio represado
que te chora na face sem penar
o epílogo de um livro já fechado
com um ponto final para chorar.

E vejo com o teu olhar de Shiva
que doer é a forma compassiva
de uma lágrima gotejar perdão.

Repousa-me na dor de tua cruz
e me cubra com lágrimas de luz
no calvário de paz do coração...

Afonso Estebanez
(Para Anna Ortiz com o meu carinho)
28/04/2010

15 de jun. de 2010

PÁGINA ABERTA

Amanhã eu vou embora
mas sabes que vou ficar
como parte da memória
que não consigo apagar.

É a magia é como o viço
do vício da brisa e o mar
é a cantiga de um feitiço
que não deixo de cantar.

Amanhã tu vais embora
mas eu sei que vais ficar
como página da história
que jamais pude fechar.

Afonso Estebanez

1 de jun. de 2010

QUARTA ROSA DO ORIENTE


Tenho saudade da saudade dela
murmurando na brisa do jardim
que revejo do encanto da janela
aberta pelo céu dentro de mim.

A minha rosa é como a cidadela
da memória na torre de marfim
desse desterro de viver sem ela
num pálido crepúsculo sem fim.

Ela me traz de volta a sensação
de algum tempo futuro já vivido
no passado que não aconteceu.

Assim pressinto que no coração
essa doce ilusão me faz sentido
como sonho que se reconheceu.

Afonso Estebanez

20 de mai. de 2010

Amor lilás

Sentados em bancos do tempo
sopramos palavras
que emitiam sons
quase inaudíveis :
só o coração ouvia

E teus limites
em meio a quietude
embriagava –se com o cantar
de um amor lilás

E chegamos ao infinito,
vestidos do orvalho
que reveste os disfarces
dos medos adormecidos

Conceição Bentes

Publicado no Recanto das Letras em 01/05/2010
Código do Texto: T2231158

O nosso eu


Sou o tocar das horas
nas mãos insolúveis do tempo,
ou a força desmedida do mundo
que ressoa dentro de nós

Somos um todo incompleto,
a saudação do sol invernal,
a espera de um amanhã tardio,
uma sombra que se encontrou
e no vento se desfaz

Meu eu mergulha em névoas
como se fosse um ser no nada,
ou a surpresa de cada compreensão,
que vai se juntando
na construção do ir sendo e nada mais


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 04/05/2010
Código do Texto: T2236474

6 de mai. de 2010

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