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26 de mar. de 2009

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 2)



(Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!)

Encheu a Torre do Tombo
encheu a Torre de Pisa
a Torre Velha da outra Banda
encheu a Torre de Eiffel
mais a Torre de Belém...
Encheu a Torre de Londres
mais a Torre de Babel
e a Torre de Quixeramobim
(se é que havia torre de Quixeramobim)
e não havendo mais torre
nem na terra nem no céu,
encheu a Torre do Reino
que era Torre de Marfim...

Encheu de dobles mazdobles do bom riir
daquela grei
que El-Rei em trobas não sabia mais
ser rei:
– se fosse assi que ela veese
das que Alá sou, ca o non sey...

Afonso Estebanez

CRÔNICA POÉTICA DOS HERDEIROS DE GARVAIA (Modo 1)


Vocal denan vocal
flan hyat sobremal
lãs cinch vacals te do:
a, e, i, o, u, so.

Hás de cantar á veira do rio,
ó son d’as olinas do campo frolido...

Cornet deu a Paay Charinho
passarinho trobador.

Muy sem vergonha irey per u for
ora com graça de vós, mya senhor.

Dom Diniz, oh lavrador!
Encheu o reino de cantar d’amigo
as midonetes de louçã senhor.
Encheu o Tejo e o d’Entre-Douro-e-Minho,
o Alentejo, a Península, a Ocitânia e o Pireneus...
Oh, Pireneus! Prazer-pesar morrer cantor:
– quer’eu em maneira proençal
fazer agora esse cantar d’amor!

Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO VIII)


Se o mar não estiver aqui amanhã de manhã...
(Ah, de saudade minha irmã não morreria
se o mar secasse amanhã!), onde estará?

Certamente estará no megalointestino da metrópole
tragado à noite pela fúria dos esgotos revoltosos.
Talvez se estabeleça uma questão internacional
porque os canais de esgoto terão sugado uma overdose
de coca-cola e um barco inofensivo de salada à perestroika
e um certo carregamento de papéis da dívida externa...
He-man porém virá sem ser chamado
e a cidade terá que vomitar o mar e as canoas,
a frota de coca-gate e as gaivotas embriagadas,
plataformas entulhos maresia de alcatrão,
as enchovas e as trutas marinhas do tesouro nacional,
o tubarão aturdido e um marinheiro naufragado,
os barcos dos pescadores e o leite de Shernobyl,
a leptospirose e os monstros de estimação...
As estrelas do mar de óleo dieesel
e mais outras porcarias que fazem mal à digestão...

Navegar é preciso...
Assim como viver do tédio
que há na alegria sem remédio
de ser feliz por profissão!...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO VII)


Eu que sou o pior de todos esses cúmplices de travessia...
Que sempre fui o mais dotado sem nenhum proveito...
Que nunca recebi mais nada além de cumprimentos...
Que carrego as seqüelas de todas as angústias
e mais aquelas que o destino me traz só por costume...
Eu que mais nada sei na vida a não ser fazer poemas...
Que desisto de tudo no meio do caminho...
Que não tenho pudor nos pensamentos...
Que não reclamo de mais nada por mero comodismo...
Que só me compadeço da miséria alheia quando nada tenho...
Eu que às vezes sequer tenho vergonha
de desejar o prato-feito dos desabrigados da enchente...
Que sou retardatário só por causa de objetos esquecidos...
Que sei que o beijo da chegada não adoça a boca amarga de meus filhos...
Que minto em casa como se fosse líder de algum piquete
quando sequer participei da greve...
Eu que nem mesmo estendo a mão aos companheiros
por receio doentio de pegar um vírus,
mas carrego para casa na sola do sapato
o catarro em que pisei na embarcação...

Sou único, sou múltiplo,
sou todos esses tontos navegantes...
Nossa Senhora da Ilha da Conceição!...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO VI)


Conheço todos esses tontos navegantes
e todos os seus casos e descasos,
seus encontros e desencontros,
mesmo aqueles com os quais nunca falei:

– O profeta que perdeu toda a família no circo incendiado...
– O pregador religioso que cobiça a mulher do irmão perdido
na cruzada missionária do tráfico da fé...
– O papa-léguas dos quilombos do Grande Rio, que leva a filha para a
escola pública no subúrbio da Leopoldina...
– A mulher que perdeu o filho drogado num desastre de automóvel...
– A jovem que rompeu a vulva na cerca de arame farpado...
– A moça que perdeu a virgindade no selim da bicicleta...
– O imbecil que sempre ocupa o lugar destinado ao paraplégico...
– A balconista despedida porque não quis dormir com o patrão...
– A menor que pede esmola para o tio cafetão...
Sou múltiplo, sou todos eles,
Nossa Senhora da Ilha da Conceição!
– O candidato político que nunca foi eleito...
– O peão de xique-xique que é calouro profissional...
– A escritora de olhos verdes que faz versos com o sexo...
– Essas mocinhas atrizes de espetáculos beneficentes...
– O fanático que tem a fórmula para matar a fome nacional...
– Esses líderes sociais que padecem de diarréia ideológica...
– Essas mulheres a néon com luzes de motel na cara...
– O mendigo que tem uma mansão na baixada fluminense...
– O mestre que perdeu a embarcação na neblina...
– A enfermeira que carrega uma scania-vabis no traseiro...
– Os garotos que se afogaram no acidente de trajeto...
– Vendedores ambulantes, skatistas, putas e travestis...
– E os pequenos (tu)um(l)tuários
desse síndrome social
que nunca mais terão (c) asa própria
com esse sistema financeiro
de emancipação nacional...

Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO V)



Vou cumprindo o destino de pegar a barca da manhã
e a da tarde e a da noite e a da que não tem hora,
a que vem e a que vai
e a que não tem para onde ir
que certamente me levará pra Cagayan
no píer transoceânico dessa republiqueta filipina.

E nada se pode fazer.
Mas tudo o que se pode fazer
é o que se faz quando o estupro é inevitável.
A área voluntária para fumantes é inútil.
Eu, se tenho vontade de fumar, fumo simplesmente
como eu e minha amante fazemos amor
quando temos vontade de fazer amor.
Sou tabagista polivalente. Se não tenho desejo de fumar,
fumo o cigarro que meu companheiro do lado fuma
enquanto não estou fumando.

E aprecio o que há nisso de patética fraternidade
comum desse jeitinho nacional de ser passivo...
Assim como não é preciso comprar o jornal de hoje
para ficar sabendo que amanhã o mercado financeiro
vai operar com taxas mais elevadas...
Simplesmente porque isso está impresso
no jornal do usuário em transe do meu lado...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO IV)


É quase comiseração o amor que sinto
pelos raios de sol agonizantes nas esteiras de óleo dieesel
como se fossem borboletas marinhas de coral
debatendo-se numa rede de espinhais carnívoros...

Mas não tenho nenhuma sensação
por causa desses homens que navegam olhando para o mar
com sentimento de autocomiseração...
Estão sempre fadados a chegar depois dos fatos
como se não houvesse pressa alguma de fazer
a abolição da escravatura proletária
escrita com sangue no coro dos operários.
ou daqueles que fazem da viagem para o lar
uma causa sem motivo de celebração antecipada
porque nem sabem se o dia de amanhã virá...

Zumbis de encruza dos palmares suburbanos
lambendo um puro feeling de fim de semana
que cantarolam ao ritmo dos pés dos punks
dos trashers e dos psycho-rokabilles
uma sunshine of your love qualquer
no show business da proa.

Mesmo assim e apesar
dessa irremediável sensação
de ressaca proletariogênica,
sou quase-andróide da interpool capitalista
navegando de Andrômeda a Cassiopéia...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO III)


Agora a barca é essa grande síntese transacional de quase-ser,
do quase-ser como eu, que sou quase-feliz
porque navego solidário nesse estado de alegria patológica,
um paciente bêbado assentado no lugar cativo
da terapia coletiva dos afortunados de merda nenhuma...

Como aquelas bancárias quase-amantes
dos delicados operadores de travellers checks
cochichando aos risinhos e segredos entre si
como se fossem as mocinhas de Picasso
posando nas vitrines coloridas das ruas de Avignon...

E eles as querem tanto a todas o quanto eu quero
que o mar esteja aqui amanhã de manhã...
E se o mar não estiver aqui amanhã de manhã?
Onde estarão as gaivotas embriagadas por essa maresia,
os peixes aturdidos sob os cascos dos navios
e as canoas e os barcos dos pescadores?
E os entulhos boiando no clarão da tarde sobre o mar,
onde estarão?...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO II)


A Cantareira não existe mais.
E nunca mais ouvi falar de alguém
que se rejubilasse tanto com atravessar o mar.
Ninguém sabe mais nada sobre a última viagem.
Meu pai nunca mais cavalgará pelas campinas
e minha irmã morreu como ave de arribação
na direção do mar que havia nas histórias do arco-da-velha.
Estar aqui é como ser nativo de lugar nenhum,
as pessoas não mais chegam de nenhum lugar
e o mar que havia na cidade não está mais nela...

A travessia agora não é mais de navegar
como no lago do jardim da minha casa
onde apertei a mão de mais príncipes do que Marcopolo.
Onde venci tormentas que Ulisses não logrou vencer.
Onde dormi no colo de todas as mulheres do amigo de meu pai.
Onde abordei mais ilhas do que Robinson Crusoé.
Onde morri de mar mais vezes do que minha irmã sonhou morrer...


Afonso Estebanez

AUTO DAS BARCAS (CANTO I)


Quando eu era pequenino
(morávamos lá pelas bandas de Minas)
um carpinteiro amigo de meu pai
levou-me de presente uma miniatura da Cantareira
que trafegava pela Baía da Guanabara
entre Rio e Nictheróy...

Aquele homem falava da exultação de atravessar o mar
como meu pai falava da paixão de cavalgar pelas campinas...
E contava coisas e coisas sobre sua última viagem
como um velho marinheiro desfiando recordações
das mulheres de cais que conhecera em Barcelona...
E dizia que pessoas vinham de países longínquos
para visitar a cidade e o mar que havia nela...

Eu então deitava minha barca no lago do jardim
e me lembrava das aventuras de Marcopolo
que à noite minha irmã contava à luz da lamparina
como nas histórias do arco-da-velha...

Hoje sei que o destino de crescer é de ter sido apenas,
e nada mais. Estou aqui, velho marinheiro ao pôr-do-sol,
igual a todos os mineradores de poemas,
fossilizados pela crença do mineiro de que o mar é seu...

A. Estebanez

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