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20 de mar. de 2009

PÁSSAROS NOTURNOS - 4



Por ofício de mim é que todos os dias
permito-me acompanhar a minha vida
num salto vagaroso sobre as penedias
escarpadas da manhã tardia e suicida...

Celebro o abundante ritual de chuvas
derramadas nos cristais das açucenas
excitadas nas mãos leves das plumas
da noite adormecida entre alfazemas...

Percorro alhures os becos sem saída
e à minha sombra amante faço amor.
Bastante a lua recostada na avenida
onde o pousar seja um doer sem dor...

Faço anúncios da face da primavera.
Agito o amor das almas sem perdão.
Mas o meu ser não deixa de ser fera
mera sombra de um pássaro no chão...

A. Estebanez

PÁSSAROS NOTURNOS – 3



... E há o pássaro noturno
contornando o mar escuro
sem ter ilha onde pousar...

Há uma noite percorrendo o céu
topografando a luz da via-láctea
em seu ocioso ofício de brilhar...

Precisa do refúgio de um corpo
como a treva da lâmpada acesa
como barcos entrando no porto
como o corpo no fundo do mar.

Precisa conhecer ilhas perdidas
como o sol necessita do poente
como a noite precisa anoitecer
aonde os riachos vão descansar.

Há um cadáver na praça
há os suicidas anônimos
e há muitos heterônimos
e mil demônios e o mar.

E há um pássaro noturno
que não tem onde pousar...

A. Estebanez

PÁSSAROS NOTURNOS – 2



Há um corvo sobre o mundo
há o corpo de um moribundo
e um contra-senso profundo
nesse aquém de além do mar...

Há os pulmões sem o fôlego
os tropeços sem os trôpegos
há os atropelos sem tráfego
e um passado ainda a passar...

Há veredas de luz na direção da lua sobre o mar
a ponte movediça e esse final de rua nua de luar
e os desesperados de amor cansados de esperar...

Há a sombra do horizonte
as paixões de Anacreonte
há os sonhos dos amantes
e há corpos para enterrar...

E há um pássaro noturno
que não têm onde pousar...

A. Estebanez

PÁSSAROS NOTURNOS - 1


Há um pássaro noturno
a vasta noite e o marulho
escondidos nos escuros
labirintos do luar...

Há os muros os penedos
e aquele setembro negro
o pavor desses rochedos
além dos medos do mar...

Há o oceano e essa vaga memória do tempo.
Há navios ao relento há náufragos e o vento
debruçados no crepúsculo
onde a luz foi repousar...

E há um pássaro noturno
que não tem onde pousar...

A. Estebanez

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