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30 de nov. de 2009

O AMOR E O TALMUDE



Meu amor, ser feliz é quando olhamos
para o passado e não sentimos remorso
do que fomos.

Teremos vivido de amor – o pão e o vinho
com que celebramos a volta e o recomeço
dos percursos breves desta vida.

E ainda que te sintas vencida pelo cansaço
da distância percorrida entre a luxúria
e o arrependimento dos fracassos,
regressa outra vez à nossa casa
– ao menos até a metade do caminho
restaurado dos sonhos em pedaços...

A outra metade,
eu te carregarei entoando salmos
na carruagem de plumas
de meus braços...

Afonso Estebanez & Julis Calderón

26 de set. de 2009

RANCORAMOROSAMENTE



Se tiveres que passar
pela porta de minha vida,
não o faças indiferentemente.
Faze-o rancoramorosamente
e deixa-me algo que pareça paz
ou coisa menos ou mais eterna
do que a aurora de um sorriso.
Se for uma hora de despedida
que seja vestida com a ternura
do arco-iris de purpurina
do colo de uma flor.

Deixa-me alguma coisa
como lembrança de partida.
Se possível, deixa-me o amor
martirizado pelo espinho
da extrema felicidade
com que (não mintas)
sempre sonhei.

Pelo tamanho da minha dor
talvez tu sintas o tamanho
do amor com que te amei...

Afonso Estebanez

23 de set. de 2009

DA ESPERA DESESPERADA



Penso em deixar o coração aberto
para quando tu vieres me buscar.
Nada em meu peito ficará deserto
enquanto o coração puder cantar.

Meu pássaro cantor virá por certo
como o vento cantando no pomar
anunciando no sonho já desperto
o dia certo em que tu irás chegar.

Enquanto tu és apenas esperança
eu vivo de saudade da lembrança
de morrer do desígnio de sonhar:

que teu amor é doce destempero
de meu amor de paz e desespero
do que morri de tanto te esperar.

Afonso Estebanez

17 de set. de 2009

Vício


(Photography by Rita Hayworth)

28 de ago. de 2009

DA ESPERA DESESPERADA



Penso em deixar o coração aberto
para quando tu vieres me buscar.
Nada em meu peito ficará deserto
enquanto o coração puder cantar.

Meu pássaro cantor virá por certo
como o vento cantando no pomar
anunciando no sonho já desperto
o dia certo em que tu irás chegar.

Enquanto tu és apenas esperança
eu vivo de saudade da lembrança
de morrer do desígnio de sonhar:

que teu amor é doce destempero
de meu amor de paz e desespero
do que morri de tanto te esperar.

Afonso Estebanez

24 de ago. de 2009

AMORES... AMORES...


(Emile Vernon, British painter,1872-1919)

Gosto de meus amores próximos
assim: com a face descortinada para o vento
e as janelas do olhar reabrindo para mim
a cortina fechada do meu pensamento.

Amores evidentes como rosas no jardim
que em mim deixem perfumes de contentamento
que invadam minhas portas abertas para dentro
e me resgatem dessa torre de marfim.

Amores são pressentimentos
dos faróis da alma em transitividade não profana
na eternidade sob as ondas dos lençóis.

E quase nada mais meu infinito amor reclama
senão que todos os amores sejam para nós
a eternidade efêmera para quem ama...


Afonso Estebanez

23 de jul. de 2009

ALMA DE MENESTREL



Não deve morrer um dia
sem que a noite seja tua
nem meu sono sonharia
sem uma canção da lua...

Nem deve correr um rio
tão distante de seu leito
passa a noite vem o frio
eu distante de teu peito...

E nem te seja saudade
a saudade que me vem
por amor não há idade
pela idade que ele tem...

E vais tu levando a lua
pelas ruas do meu céu
com a alma quase nua
por teu doce menestrel...

A. Estebanez

26 de jun. de 2009

EN PASSANT...



Passando aqui só para ver o meu amor
bailando nos compassos de tua canção
tão doce que pareço o meu feliz cantor
numa ária de amor vibrando o coração

passando aqui de novo para relembrar
tantas foram as primaveras sem verão
perdidas da esperança de poder voltar
ao leito de descanso dessa compulsão

de reviver o teu amor sem sofrimento
ainda que amar te seja apenas ilusão:
passando só para falar do sentimento
e todo esse lamento de não ter razão.

Afonso Estebanez

ENTRE GÉRBERAS E ROSAS



Nunca deixes de olhar para tua flor
com o encanto das aves retirantes
ainda que em sonho te pareça dor
a dor do olhar doído dos amantes.

A flor traz sensação de ver o amor
da gávea numerosa dos mirantes:
as flores são teus barcos ao sabor
das razões infinitas dos instantes.

Faze de ti como te cuida o artífice
que te faz renascer do apocalipse
ao plano de desconhecida esfera:

um canteiro de gérberas benditas
e os arco-íris de estradas infinitas
entre as rosas de tua primavera...

Afonso Estebanez

AMOR PROFUNDO



Não seja meu amor um mero passageiro
nesta estação de embarque de quimeras
em que a esperança espera em cativeiro
nas lembranças do encanto das esperas.

Que em nossas vidas fique o cancioneiro
com memórias do amor de quantas eras
migradas de entre as pedras ao canteiro
onde hás plantado à flor das primaveras.

Que os dias não nos passem enfadonhos
e nos deixem sonhar nossos dois sonhos
como almas gêmeas de meu travesseiro.

Provavelmente o amor venha a ser tanto
que transcenda os limites desse encanto
e seja tão eterno o quanto é verdadeiro.

Afonso Estebanez

2 de jun. de 2009

13 de mai. de 2009


INTIMIDADE

Não foi, amada!
Não foi o orvalho
da madrugada...
Foi a lua na janela
que te surpreendeu
dormindo e chorou
desconsolada...

Afonso Estebanez

INTERMEZZO

A oficina do amor é o coração.
Quando se consumar a profecia
já não precisarão mais do profeta.
Quando se consumar a poesia
já não precisarão mais do poeta...

Por isso devo reinventar o amor
antes de reinventar a minha vida...

Vou conversar apenas com as flores
falar somente em bem-aventurança
calar-me para sempre como a alma
sepultada no fundo da esperança...

Eterno como a noite sobre a pedra
na história da canção despercebida...
Como o silêncio sábio da memória
das coisas simples
não compreendidas...

A. Estebanez

FLOR DA ALMA

Vem desse amor eterno de você
uma canção tangida pelo vento
uma flauta no som do pensamento
que ressoa na alma e não se vê...

Brisa da tarde nos florais do ipê
num cântico de beijos ao relento...
Um feitiço de amor à flor do tempo
que vem sem precisar dizer porquê...

Uma canção de ser tão docemente
percebida... Tão leve se pressente
que a gente nem precisa perceber...

Basta ao amor plural de sua vida
saber-se a alma eterna e resumida
na alma de uma flor no alvorecer...

Afonso Estebanez

4 de mai. de 2009

AMOR DE CARNAVAL


Se de fato tu queres me encontrar
apesar de me teres transformado
na tua multidão, tu deves procurar
no alvoroço do baile triunfal
de teu tumultuado coração...

Eu sou aquele que tu vês se levantando
daquela sombra que virou teu chão.
Repara como eu engoli meu sim
para não ter que devolver teu não...

Se de fato tu queres me encontrar,
eu sou aquele que já foi embora
com uma flor na mão...

Afonso Estebanez

19 de mar. de 2009

PARÁBOLA DE AMOR

Tela de Pino Deane

O que vou te confessar agora
nesta inconsútil parábola de amor
a ninguém jamais foi dito.
Nem eu sei
o que dizer daquilo que não tem memória.

É como o nascimento casual
de uma flor na relva do jardim
ou a canção inesperada de um pássaro
que canta por instinto.
Porque o destino do pássaro
é cantar,
assim como o destino da flor
e florescer...

E se o destino do que devo te dizer
é esse,
então o amor por si próprio se revelará
inexoravelmente
como o sol que entra de manhã
pela janela de minha casa.

Por isso,
peço que guardes minhas palavras
para toda a vida
como a única,
última
e decisiva chave
do teu livre convencimento.

Porque amanhã,
se eu te disser a mesma coisa
já não seria a mesma coisa,
senão aquilo que te não disse
com as mesmas palavras
que teus ouvidos já ouviram
e teu coração já sentiu...
E é tudo o que sabes das águas de um regato
que não rolam mais por onde já passaram...

As aves que bailam pelo céu
nunca traçam a mesma trajetória,
ainda que prossigam em cumprir
seu destino de voar
como silfos desenhando no infinito
um aeromapa de rotas desconhecidas.

As palavras,
pastoras dos rebanhos de minhas emoções,
jamais conduzirão suas ovelhas pela mesma trilha
onde os lobos dos sentidos
tocaiam suas presas.

Assim como a canção mais leve
que há no mais breve instante em que o cristal
se quebra,
assim minhas palavras
são como as borboletas que morrem
após seu único,
último
e efêmero ato
de amor eterno!

Põe tua última atenção em mim.
Eu quero que me ouças assim como te falo
– de braços apertados ao redor desse meu próprio
abraço,
como quem vive da alegria reinventada de viver...
Ou de braços abertos para a noite iluminada
como a aurora que precede a convenção dos pássaros
antes de o dia amanhecer...

Repara bem no que agora vou dizer:
– Minha vida foi de inventar.
A única coisa que tenho reaprendido
é ficar ancorado ao redor de tua vida
como a ave marinha que não sabe de outra ilha.

A travessia para mim foi um naufrágio
de que não guardo mais qualquer recordação.
Estar aqui é só o que me basta,
como às eras dos penedos basta a brisa que as visita.
Minha esperança não tem nenhuma inquietação.
Meus sentidos não têm um só pressentimento.
Em silêncio me deito em teu regaço
e agonizo num êxtase sem sofrimento.

E assim vou construindo a eternidade deste instante
como o náufrago que reconstrói a sua nau
dos restos que ficaram dos momentos...

Despojo-te de tuas vestes
e faço disso um ritual de paz
e não um exorcismo de memórias e ressentimentos.
Eu faço como o sol que despe sua flor na relva
pela simples razão de que há nisso
o instinto de sublimação pelo milagre renovado.

Quantas e quantas vezes tens deixado
que eu te crucifique no meu corpo
pelo simples mistério que há no amor
de imolar-se sem ter padecimento.
Quantas vezes velei para que tu dormisses
com o murmúrio do mar ao redor de sua ilha...
E era sempre meu anjo quem velava
os sonhos de nós dois enquanto tu dormias.

Jamais pedi que me dissesses o quanto te mereço
nem sei se o sol o exigiu da flor.
Emigra o pássaro e seu canto fica...
Se é passageiro vem do que padeço.
Mas se é eterno vem do nosso amor!

É por isso que peço que me escutes
pela última vez em tua vida...
– Das mais altas colinas de meu ser
das mais altas encostas já vencidas

declaro-te mulher,
rainha te consagro
e deusa te proclamo...

E meu grito ressoa nas montanhas:

– EU TE AMO!...
– EU TE AMO!...
– EU TE AMO!...

A. Estebanez

NAMORADA


A minha namorada
é como a luz da aurora.
Quase nunca retarda
quando o dia precisa
e a noite é indecisa
e a alvorada tem hora...

Quase sempre ela dia
quase nunca ela é noite
quase nunca ela é tarde...
O amor dela é remido
sem a dor dos sentidos
é um amor sem alarde...

A. Estebanez

MEUS ANJOS FALAM



Quando meu anjo te fala
teu anjo fica em silencio.
Quando meu anjo se cala
teu anjo fala o que penso.

Quando teu anjo me fala
meu anjo fica em silencio.
Quando teu anjo se cala
meu anjo fala o que penso.

Tudo o que teu anjo fala
meu anjo fala em silêncio.
Cada anjo então se cala
para falar o que penso.

Tudo o que meu anjo fala
teu anjo fala em silêncio.
O anjo que então se cala
é o que fala o que penso.

Anjos são dois dialetos
de uma única linguagem
quando falam dos afetos
no silêncio da mensagem.

Eles são esses dois lados
das canções e seu cantor
que juntos falam calados:
Como te amo, meu amor!...

A. Estebanez

INTIMIDADE


Não foi, amada!
Não foi o orvalho
da madrugada...
Foi a lua na janela
que te surpreendeu
dormindo e chorou
desconsolada...

A. Estebanez

INTERMEZZO


A oficina do amor é o coração.
Quando se consumar a profecia
já não precisarão mais do profeta.
Quando se consumar a poesia
já não precisarão mais do poeta...

Por isso devo reinventar o amor
antes de reinventar a minha vida...

Vou conversar apenas com as flores
falar somente em bem-aventurança
calar-me para sempre como a alma
sepultada no fundo da esperança...

Eterno como a noite sobre a pedra
na história da canção despercebida...
Como o silêncio sábio da memória
das coisas simples
não compreendidas...

A. Estebanez

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