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19 de mar. de 2009

Livro da viagem ou do depoimento - QUINTO


milênio de paz e mistério
nos alvos vultos de voláteis vestes
onde vem leve o vento flautear.

Na pachemina em sândalo na seda
que vão cantando músicas de vidro
purificando os dedos no tear.

Um rebanho se move lentamente
como um rio tangido pelo canto.
Nos braços da mãe um anjo levita...

Ouvem-se passos de velhos amigos
e tece em silêncio toda a família
o pão de amor com que se comunica.

Sáris brilhantes teares incenso...
Aurora policrômica de um deus
que nos fala como antigo parente.

É o segredo da paz que não sentimos
quando nós sem amor lhe desvendamos
o mistério da fome que não sente.

Afonso Estebanez

Livro de viagem ou do depoimento - SEGUNDO


a prova do tempo
o irmão cosmoascencionário
não tem ódio nem amor...
Apenas curte a cobiça
do enteu bdélio e formal
– o degas imperador.

Morra a flor, mas guerra é guerra.
Nos bate-bocas da paz
make tecnic of love!
Desde que inventou a fome,
das primas virgens não há
uma só que ele não prove.

Fora, faz praças de sangue
para mostrar na cozinha
aos irmãos que é o mais forte...
No momento da partilha,
se quiser levar a vida
que leve também a morte.

Fraternidade promíscua!
Faz pensar que o beijo seja
a arma com que se apossa...
No entrevero da conquista,
desfralde a sua bandeira...
Mas nunca defraude a nossa!

16 de mar. de 2009

Livro de viagem ou do depoimento - PRIMEIRO


que tudo aceito a tirania da saudade
que levo como prova de amor envergonhado:
minha gente submetida da América deBaixo
é a mulher rendida da América de Cima.
As gaivotas negras da paz estão pousadas
nas sombras das pedras machucadas pelo tempo
– a decidir caminhos que vão não sei pra onde
gritando liberdade de não sei o quê.

O que humilha mesmo é essa guerra de muletas
onde a vergonha da derrota nos obriga
a colher restos de louro jogados pelo chão.
Acostumamo-nos a estender as nossas mãos estradas
e os nossos braços trilhos às locomotivas
que colidem todo o dia com o nosso coração.

E vamos passando em nós uma cidadezinha antiga
onde o Rei um dia prometeu passar...
– E não passou!

Não sei onde arranjei essa coragem de dizer
que nossas guerras são de auroras
renascentes na paz do sangue verde matutino
da criança que ainda acordará dentro de nós...


A. Estebanez

Livro de viagem ou do depoimento - TERCEIRO


mundo ou planeta
ou cortina de montanhas
onde as mãos que não semeiam
tiram flores das entranhas...
Onde o canto se constringe
com mil facas na garganta
que pra viver em que ouve
precisa matar quem canta.

Ninguém sabe a leite ou mel
estrangeiras ilusões
sob a terra prometida
as sementes dos canhões.
Torne ao chão o que é do chão
cada um tem seu processo
e ninguém condene a falta
quando peca por excesso...

Terras, máquinas, nem sempre
põem coroas em quem vence...
Pelo homem haja quem faça,
não haja nunca quem pense.
A semântica da língua
é reserva do senhor...
– Amados, não sejais mudos,
envenenai-vos de amor!

A. Estebanez

14 de mar. de 2009

Livro de viagem ou do depoimento - SEXTO


continente sem amor amado
comprado a peso de ouro
no mercado inflacionário dos brancos.

Os guetos são o sexto sentido
da liberdade currada.

Os mercadores da guerra acreditam
que o amor odiado morre com a morte.

Mas o preço do ódio vendido
é ser vermelho o sangue dos negros...
– Livre, há de querer provar o quanto é forte!


Afonso Estebanez

13 de mar. de 2009

Livro da viagem ou do depoimento - QUARTO



de família. Odor de gasolina na floresta.
Mulheres cheirando a flor de arroz
chapéus-de-palha na cabeça.

Ah, crianças morrem
porque não sabem que há flores
que são napalms.

Os homens voltam dos pântanos
os alvos dentes camuflados
pelo silêncio premonitório da família.

Quando estiverem todos dormindo
o profundo sono da tragédia
os passarinhos inventarão a guerra...

Afonso Estebanez

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