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21 de mar. de 2009

O TRABALHO ANDA DE TREM POR TRÁS DA CORTINA VERDEAMARELA (Última estação)


Mandarão desobstruir os troncos e trocar o maquinista que morreu.
E levantar a rede que tombou e vir nova composição diretamente
de algum new york citybank...
E haverá protestos
e substituirão leis novas por leis velhas
e também leis velhas por leis novas
e vão até condecorar a máquina:
Made in Bananas...

Mas nada disso adiantará
porque não é a máquina
que faz possível a viagem.
É essa concordância tácita
com dividir em alta velocidade o longo e vagaroso itinerário da esperança
desesperada…

O trem prosseguirá curando
a claustrofobia da zona sul
a esperança mal amada
o tédio dos aviões
o cansaço da porrada
o atraso da menstruação
a mulher abandonada
a prece não atendida
a comida requentada
o parto mal sucedido
a vida desajustada
a exploração
consentida
o assalto à
mão armada...
Tudo o mais
e mais nada.

A. EstebanezM

O TRABALHO ANDA DE TREM POR TRÁS DA CORTINA VERDEAMARELA (Estação terceira)


Os mais fortes oprimem os mais fracos
como se estendem pernas para o baleiro cair com a boca amarga
sobre balas doces. Uma estudante atirada no leito da via férrea.
Uma sexagenária acometida de mal súbito está morrendo
por falta de socorro médico. Um sujeito toma o jornal do jornaleiro
lê todas as manchetes e o devolve.
Um pivete retalhando a bolsa de uma jovem. Um pingente colhido pelo poste...

O trem é o intestino da metrópole: operários, soldados, meretrizes,
palhaços, estudantes, vendedores, loucos, ladrões, crianças, suicidas...
Foram todos engolidos pelas fábricas, motores, edifícios, construções...
Marca-passos de ouro dos banqueiros, despejados no trajeto
como objetos descartáveis das angústias e paixões...

Eventualmente o vômito da morte. Luzes. Sangue. Letreiros luminosos.
Gemidos. Sirenes. Vermelha escuridão. Miolos espalhados
pelos trilhos. Flores carnívoras. Corpos mutilados.
Olhos calados gritando pela boca estarrecida.

Os caçadores de notícias assistem à colocação daquilo tudo perfilado
na plataforma como num ritual olímpico...

A. Estebanez

O TRABALHO ANDA DE TREM POR TRÁS DA CORTINA VERDEAMARELA (Estação segunda)


A noiva comprime as coxas e se curva sobre o assento de ferro cromado
para ocultar a virgindade psicológica de uma inocência certamente rara
entre as princesas da Inglaterra.

Um grupo de soldados e conscritos espreme o corpo de uma prostituta
que os alimenta de calor e leite. A paisagem noturna engole a máquina
como a um rio o mar aberto.

Adolescentes operárias debocham de suas relações concubinárias
com um salário mínimo obsceno. O menino desembrulha um pedaço
de pão adormecido e janta solitário...

A máquina metálica se torce e se contorce como besta amordaçada.
Serpente que engoliu uma república regida pelo desgoverno.
Embarca-se. Não se pergunta nada. Não se olha para os lados.
Pensa-se baixo para não acordar a máquina de seu programa de viagem.
Não se pode baldear em movimento.
Ame-a ou deixe-a. Mas não se força a porta.
Não se arranham bancos.
Não se quebram vidros.

A. Estebanez

O TRABALHO ANDA DE TREM POR TRÁS DA CORTINA VERDEAMARELA(Estação primeira)


Por trás da cortina verdeamarela o trabalho
anda de trem como num túnel de emergência por onde escapam
os salvados de um terremoto. Ninguém transporta nada
além da própria condição de sobrevivente.

Não é a máquina que torna possível a viagem.
É essa concordância tácita com repartir misérias e grandezas
em alta velocidade. É como se todos duvidassem da multiplicação
dos pães e, no entanto, aguardassem a hora do milagre...

Cada um é vítima e carrasco, autor e cúmplice da história comum.
Pernas se misturam e se desgarram e se cruzam e se repartem
num ritual de corpos coletivos que se movem solidários.

Todos se reconhecem pela angústia que não está na face eletromecânica.
Mas na roupa, no embrulho, na marmita, na mala, no sapato vagabundo...
O mendigo percorre o tempo sobre rodas com um saco de estopa
sobre os ombros... Como princípio e fim de cada um.

A. Estebanez 06/04/08 Afonso Estebanez

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