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20 de mar. de 2009

PASTOREIO I


Depois que aqui for deixado
e todos tiverem ido
vou ser vento libertado
pelas mãos dos desvalidos
espalhando flor e pólen
no solo fertilizado
com o pranto dos oprimidos...

Vou soltar as estribeiras
cavalgar nuvens em pêlo
e aboiar as corredeiras
de meus rios represados...
Vou montar a liberdade
fingida das carpideiras
na pena dos condenados.

Sob os lábios comprimidos
dente por dente calado
olho por olho cerrado
na masmorra dos sentidos...
Vou virar redemoinhos
e girar pelos caminhos
como pássaros banidos.

Meus sonhos pagens de ninfas
luzes sombras sobre os lagos
prado em flor de claras tintas
e mistérios desvendados...
Vou apascentar meus mortos
na paz de ovelhas famintas
entre lobos saciados...

A. Estebanez

PASTOREO II


A viagem de tua alma
terá como roteiro
minha alma de menino.

Teus pés caminharão
pelos meus pés descalços
sobre os liquens e seixos
dos leitos dos riachos.

Raios de sol surgirão da campina
como pássaros das águas de coral.
Suas asas de luz vibrarão na manhã
como brisa entreabrindo janelas
esparsas nas sombras fugidias...

Percorreremos os rumos serenos
das águas fluentes e amenas
das fontes brotadas na relva
como flautas tocadas a esmo...

Abandonaremos por vezes o curso
dos rios e navegaremos o campo
como barcos de nuvens embriagadas
de ventos repentinos.

Iremos para além de onde
nada mais exista
qual pensamento obstinado
num gozo sem motivo.

Reconheceremos rostos amigos
lembrar-nos-emos de coisas esquecidas
e nossos olhos se tocarão num sorriso
sem sofrimento como plácidas mãos
que compartilham pão e vinho
num velho convívio,,,

A. Estebanez

PASTOREIO III


Não é apenas sua voz que apascenta
meus dispersos rebanhos de sentidos
e faz correr dentro de mim as águas
das ribeiras com sorrisos flutuantes
de um concerto de flautas e flautins...

É também sua face voltada para onde
e como a flor se inclina ao ser tocada
pelas mãos da manhã em seu jardim...

Nem são apenas as veredas alunadas
por seu destino de amada passageira
que fazem de mim pastor de sonhos...

São todos os caminhos contornados
pelos rebanhos de suas esperanças
reencontradas entre vales e colinas
e nos bosques tingidos de alfazema
para repousar a lembrança da volta...

Ah, os anjos desenhados no espaço
de seu corpo e os risos precursores
das palavras que nunca foram ditas...

É esperança que só o adeus revela
quando o seu coração agita a alma
para alcançar os sonhos fugidios...

Pássaro liberto pelas mãos da vida
borboleta com sua dimensão exata
desse perder-se sem ficar perdida...

A. Estebanez

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