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27 de mar. de 2014

Despedida...


Perdi meus rastros...
foram cobertos pelas areias do seu espaço.
Nas áridas paisagens do seu desapego
sofri a inanição dos meus desejos
e a perdição de seus abraços.

Era para ser imenso...
o amor que via em seus afagos.
Porém, nas dunas de seus beijos,
colhi o veneno do desprezo
sendo presa de seus laços.

Se pede amor por inteiro...
devia entregar-se por completo.
Do mar alto da desilusão,
com tristeza me despeço
o coração já aos pedaços.

Entre nós e o horizonte...
fica o silêncio do amor dos pássaros.
Que perdure tão curta a eternidade,
seja eterno o instante desse amor
restado de tão breves traços...

Juleni Andrade & Afonso Estebanez

MEU REBANHO DE SAUDADE


Que saudade dos sonhos que perdi
do amanhecer do tempo de sonhar
ao termo da paixão que eu não vivi
por ter adiado o tempo para amar.

Que saudade de quando eu padeci
feliz de amargurar-me sem chorar
das feridas do amor que não senti
fingindo que paixão pode esperar.

Devo viver o lado bom do inferno,
talvez o amor não seja tão eterno
como a luz que seduz a claridade.

Eis ninguém pode separar de mim
as memórias que planto no jardim
solar de meu rebanho de saudade.

Afonso Estebanez

2 de mar. de 2014

HENDECASSILABITÁLICO


De amor meus crepúsculos tintos de vinho
Torrente de escombros de eu n’eles chorar
Que sofra eu de n’eles andar sem caminho
Ou moyr'eu, Senhor, por me d'eles deixar.

Meu canto noturno é de algum passarinho
Que a aurora me traz se a saudade chegar
Com rosas despidas de dor ou de espinho
Ou moyr'eu, Senhor, por vos n'elas amar.

Em nome do amor hei vencido meu vício
Purgado em esfera onde o meu sacrifício
Foi moyr'eu, Senhor, por me d'eles remir.

Não tenho um jazigo de sonhos passados
Só portas de entrada de amores deixados
Pois moyr'eu, Senhor, se me d'eles partir.

Afonso Estebanez Stael
(Em poema dedicado ao meu V:. Ir:. e notável
advogado gaúcho Pedro Danilo, de passagem
pela verdejante Porto Alegre/RS,
em memorável primavera de 2013)

“HENDECASSILABITÁLICO”



Trata-se de produção ao estilo contraposto às formas rígidas do soneto petrarqueano com versos de onze sílabas métricas, único verso designado por ‘Arte Maior’ usado pelos poetas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Segundo Jacinto Prado Coelho, em seu Dicionário de Literatura, "No Cancioneiro Geral de Resende, onde triunfa a redondilha, só se encontra um verso de arte maior. Trata-se de um ritmo especial, cuja voga se limitou ao século XV, mas que ainda se encontra em Gil Vicente (séculos XVI e XVII), composto de versos de dez e onze sílabas". Sua designação, na prática, incluía todos os versos com mais de sete sílabas. Mas os poetas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende utilizaram exclusivamente, como verso de arte maior, o de onze sílabas, pelo que esta designação acabou por se referir exclusivamente ao verso hendecassilábico, que se veio depois a tornar raro na poesia portuguesa..." Com o triunfo renascentista do verso decassílabo italiano, usado abusivamente por Francesco Petrarca (século XIV) e moderadamente por Camões (século XVII), o verso de onze sílabas caiu em desuso. O exemplo contestatório que estamos oferecendo como mote rítmico flexível do último verso dos quartetos e tercetos do soneto “HENDECASSILABITÁLICO”: – "E moyr'eu, Senhor, por me d'eles partir" – constitui uma glosa em português arcaico em contraposição ao latim ‘volgare’ ao engessamento do soneto praticado pelo ‘Senhor dos Sonetos’ (Petrarca) tipo exportação. O hendecassilabitálico que lançamos é um cântico lírico (o que era inadmissível no soneto decassílabo da escola petrarqueana) composto supostamente por um cavaleiro templário sobrevivente dos campos de batalha (os campos de batalha da vida) que regressa suplicando o direito à paz e à liberdade, em nome do bem comum maior atribuível ao ser humano: o amor. No soneto “hendecassilabitálico” que compus, dei nítida preferência a que a cadência, a tonicidade interna e a sonoridade recaíssem sobre as 2ª, 5ª, 8ª e 11ª sílabas de cada verso. Por motivos óbvios, homenageei com a composição em comento o meu V:. Ir:. e notável advogado gaúcho Pedro Danilo, de passagem pela verdejante Porto Alegre/RS, em memorável primavera de 2013.

Afonso Estebanez Stael

13 de fev. de 2014

'A VIDA NA CONTRAMÃO'


Não me embebedo com nada
porém me embriago de tudo
quanto mais me dão porrada
quanto mais me tenho mudo

Minha alma anda para frente
mas meu eu sempre pra trás
o que eu sonho é indiferente
quando peço o amor me traz

Minha vida anda embriagada
entre a aurora e a escuridão
bate em portas sem entrada
e quando entra é contramão

E esse mundo é tão deserto
que a noite me dorme acesa
com temor de não dar certo
meu despertar sem tristeza

E assim meus dias se calam
como as noites sobre o mar
como as rosas que só falam
quando o amor quer escutar.

Afonso Estebanez Stael

8 de jan. de 2014

NÃO ACORDEM MINHA MORTE


Não acordem minha morte
que descansa adormecida...
E que à alma não importe
se a morte é sono da vida.

Minha carne não acordem
e nem do sangue exaurido
o fluído que em desordem
deixa-me o corpo esvaído.

Dêem pó para minh’alma
que de mais nada precisa
senão do canto da calma
que de amor não agoniza.

Não acordem minha vida
que está só desacordada
e que a alma amortecida
só me acorde despertada.

E da morte não desperte
a minh’alma adormecida
e da vida ainda me reste
o outro lado desta vida...

Afonso Estebanez

SEGREDOS DA INSÔNIA


I

Até que a noite faça agonizar-me o sono
meu coração ainda insiste em pressentir
ruídos de batidas nos porões da insônia...
Mas sei que me é possível resistir!

São pesadelos reencarnados do passado
morto... Fantasmas de navios ancorados
nos cais abandonados das ilhas de mim...
E sei que me é possível resistir!

Até que em morte acorde e eu adormeça
ainda sinto adormecidas sensações de ti...
De um lugar assombrado em minha vida
de onde sei que é possível resistir!

Ô, mulher-menina que perdi na infância
canção de bem-querer do quanto padeci...
Uma certa saudade vadia sem distância
e ainda assim me é possível resistir!

Afonso Estebanez Stael

SEGREDOS DA INSÔNIA


II

Até que essa lembrança enfim me esqueça
há noites de desterro do amor que não vivi.
Pode ser exaustão de luz na lâmpada acesa...
E ainda assim me é possível resistir!

Contorno a direção da porta, transtornado.
Pode ser um carteiro noturno e devo abrir.
Pode ser o domingo retornando ao sábado...
E ainda sei que me é possível resistir!

Talvez um corpo astral de aeronauta ainda
meu duplo que retorna antes de prosseguir
na fé dos missionários da esperança finda...
E ainda me é possível resistir!

Porém vou levantar-me lentamente agora
e reescrever os últimos versos que escrevi.
Depois vou caminhar devagar até a porta...
Pois não é mais possível resistir!

Afonso Estebanez Stael

SEGREDOS DA INSÔNIA



III

Permitir que me banhe a claridade do luar
como a alvorada inaugural o ultimo porvir.
Por trás do reposteiro um anjo me convida
e não é mais possível resistir!

Guardo as fotografias dos parentes mortos.
Depois conforto meus sentidos sem sentir...
Os versos falam já transcritos na memória
que é quase impossível resistir!

E antes que o coração em cânticos pereça
devo afinal abrir a porta, morrer e desistir...
Como a hora desiste do relógio sonolento
sem tempo agora para resistir!

Eu me absolvo de afogar-me em lágrimas
se é para sempre que esta noite vou partir...
Vou perder-me entre a linha do horizonte
e viver e sonhar e morrer sem resistir!

Como vivem os lírios dos campos...
Como sonham os pássaros da paz...
Como ama o amor os desencantos...
E morrem os heróis sem desistir...

Afonso Estebanez Stael

13 de dez. de 2013

REFLEXÃO SOBRE O NATAL


Algo entre nós não quer ser a caça do medo
nem a eterna esperança que o medo desfaz.
Algo entre nós que não é feito de brinquedo
mas da quebra dos pactos de vida sem paz.

Algo entre nós como a ressurreição da rosa
num renascer gentil de auroras encantadas
como algo que retorna à infância venturosa
para tecer os novos sonhos de mãos dadas.

Algo entre nós que nos divide e multiplica,
que nos semeia e colhe com o dom da flor.
Algo em silêncio que não fala, mas explica
a razão da regra sem a exceção do amor!

Afonso Estebanez

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