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10 de abr. de 2010

NA BEIRADA DO JARDIM


O aroma é a parte da alma
da brisa que a chuva deixa
como lembranças da calma
da saudade que se queixa.

Saudades das flores findas
entre as pedras do jardim,
por causa das rosas lindas
que moram dentro de mim.

O orvalho em gotas de luz
é o vinho que excita a flor
como a paixão sem a cruz
em meu calvário sem dor.

Falo que rosas não falam,
mas as minhas falam sim:
o aroma que elas exalam
é o verbo dentro de mim.

Afonso Estebanez

9 de mar. de 2010

MULHER: TRAJETO DA VIDA



A mulher é a partida
no início da chegada.
Faz o trajeto da vida
luzidia da alvorada...

É a fênix renascida
é a alma despertada
a parte reconhecida
da vida reencarnada...

É o amor é o juízo
é a dor do paraíso
a verdade da ilusão...

A mulher é o desejo
é o fruto e é o beijo
e a causa do perdão!

Afonso Estebanez
PELO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

22 de fev. de 2010

O POETA E A LOUCURA QUÂNTICA



Há muito sofrimento neste mundo.
O poeta escala o fundo da alvorada
e dela vai a um despertar profundo
de outra vida que é sua dor calada.

O poeta vai aos campos de batalha
armado com o instinto de uma flor,
e na frente de luta o poeta espalha
seus cânticos de guerra com amor.

O poeta vai aos campos de centeio
e tira o joio enquanto colhe o trigo
que doa como pão partido ao meio
para a missa de paz com o inimigo.

Todo poeta é um louco concebível,
é um mago e sua quântica loucura
em que o eterno pode ser possível
na dimensão possível da ternura...

Afonso Estebanez

Campo de Meditação



As estradas que sempre iam,
continuam indo, a despeito de mim
que por hora estou voltando...

Mas quando não houver
mais estradas para quem vai,
suave será a carona dos riachos
que são estradas feitas de lágrimas
de saudade dos amores viajados.

Continuarão, como os dias e as noites,
na direção do reino do nunca mais...
E como as rosas num leito de orvalho,
é possível que eu me reencontre comigo
em qualquer curva do crepúsculo
para o vasto espanto das manhãs
que terei deixado para trás...

E não posso evitar que seja assim:
as estradas levando a memória
do quanto eu ando de rosas
nas veredas do meu jardim...

Afonso Estebanez

8 de fev. de 2010

Alma de poeta



Exuma desse amor que a poesia
é dom da liberdade de um poeta
como a aurora na estrela luzidia
é dom do novo dia que desperta...

As almas dos poetas são magia
onde o ser infinito se completa
em espasmos de paz ou agonia
feliz de reviver só do que resta...

Poeta não é presa dos sentidos
é o exílio dos pássaros banidos
de alma livre e cativa se quiser...

Só há um ser de amor e alma repleta
capaz de cativar a alma de um poeta:
é o ardoroso coração de uma mulher...

Afonso Estebanez

31 de jan. de 2010

SONETO DA DESPEDIDA



Foi necessário que chovesse tanto
para que tanto mais o sol voltasse
a refletir a luz que a dor do pranto
inundou de penumbra minha face.

Foi-me defeso ressentir do quanto
sob a cinza do amor em desenlace
ainda me encantaria o desencanto
se esse rio de mágoa não secasse.

Não refaças o curso dos meus rios
nem acenes ‘adeus’ para os navios
de sonhos idos do meu velho cais.

Não levo nada... Só a necessidade
que ainda tenho de sentir saudade
dos teus momentos lívidos de paz.

Afonso Estebanez

18 de jan. de 2010

BALADA PARA ZILDA ARNS



Hoje eu poderia morrer por tua causa
eu poderia até morrer de amor por ti.
Mas teu amor aflito me dá uma pausa
para morrer de amor maior por Haiti.

Só uma dor profunda sente tanta dor
maior que todo sofrimento que senti:
é a solidão da morte de não ter amor
o new apocalypse que varreu o Haiti.

Nós hoje poderíamos mudar o sonho
eu a dogmática verdade que aprendi
e tu a biografia obscura do medonho
apartaid racial que segregou o Haiti.

Hoje eu deveria viver por uma causa
que celebrasse a glória de viver aqui.
Porém a dor é tanta que parece rosa
sob os escombros ardilosos do Haiti.

Afonso Estebanez

*Zilda Arns Neumann
(Forquilhinha, 25 de agosto de 1934 — Porto Príncipe, 12 de janeiro de 2010) foi uma médica pediatra e sanitarista brasileira.

15 de jan. de 2010

A FOTO NA PAREDE



Meu retrato na parede
só traz uma novidade:
o fundo tinto de verde
ficou tinto de saudade.

O olhar pálido de sede
no poço da eternidade
é a luz filtrada na rede
da grade da liberdade.

Uma ruga me comove
de ter restado na vida
do nada que me ficou.

E só o sonho se move
na retina amanhecida
desta foto que restou.

A. Estebanez
(Dedicado com muito carinho
à amiga Lucia Borini Simões)

12 de jan. de 2010

SOB A LUZ DA ALMA



Não posso ver o teu mundo
com o olhar sem ver o meu
se estou no limbo profundo
da luz que o cosmo perdeu.

Mas se tanto me aprofundo
em teu fado onde estou eu,
enxergo o encanto fecundo
do mundo que agora é teu.

Pois o amor é essa inversão
que impõe ao sonho a razão
de crer mesmo sem querer,

sob um tênue véu de calma
tu te ocultas na minha alma
de onde a luz me faz te ver.


Afonso Estebanez
(Dedicado a Tania Sá
– tão gentil amiga)

10 de jan. de 2010

LEMBRANÇAS DE PAQUETÁ



Paquetá! – aqui estou de face revelada
ao fado de rever-te se ora me destinas
tua história de amor e glória recontada
no diário natural de tuas obras-primas.

Tenho saudade da saudade antecipada
que já sentia da canção das casuarinas
ao desmaiar no alvor da lua repousada
a luz do dia à flor das águas cristalinas.

Paquetá! – infinita luz entre dez milhas
de auroras e crepúsculos tintos de mel
de flor de flamboyant e banhos de luar.

Esmeralda pendente do colar das ilhas,
parte de um paraíso que restou do céu
d’algum éden celeste que caiu no mar.

Afonso Estebanez

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